terça-feira, 9 de novembro de 2010

AMIGO MUSICAL CONVIDADO # 17 - Felipe Ramirez!

Mais um que tem problemas de exposições na internet. Fazer o que?! :p



Engraçado pensar nele assim: como somos parecidos e diferentes na essência. Um grande amigo, companheiro de inúmeros números de circo, tragédias gregas, contos de fadas, de bruxas. E sempre juntos. O moço me fez enxergar o que eu poderia oferecer aos outros e a mim mesmo, apenas tirando minha viseira, num crucial momento de incertezas e dúvidas que vivenciava...
Não é apenas o meu melhor amigo, tenho certeza: fomos irmãos ou algo mais em vidas outroras (o que, não acreditam nisso?rs). Não há TH sem FR - Nem nunca haverá...Quando, por um curtíssimo lapso temporal, ficamos sem nos falar, percebemos o quanto não éramos nada, um sem o outro. Desintegrados, nossas essências eram totalmente nulas - o que nos fez, tão logo, "nos tocar" e deixamos de lado nossas bobeiras, vendo que a verdadeira amizade sempre prevalece acima de qualquer impasse pífio. Inefável parceiro...Mal necessário chamado Felipe Ramirez!
Longe como está, ou presente como sempre esteve, o que nos liga, sobretudo, é o barbante: enquanto eu voo, ele o segura e me mantém a salvo...

...

Quem vê esse texto acima que fiz em 2008 pro meu outro blog, "ETHos" pensa que o rapaz é uma dádiva. Não que não seja, mas eu ainda acrescento: é um doido! Um maluco que quando passa, faz a gente rir sem precisar fazer muito esforço. Um palhaço divertido que consegue fazer até a barriga do Pedro de Lara doer de tanto dar risada. E nos faz pensar: tão bom que pessoas que já sofreram tanto na vida pudessem seguir suas sagas com tanto bom humor e suavidade. Felipe é leve. Às vezes frívolo, mas consegue muito bem depositar um pouco de sua boa energia por onde passa e com quem se envolve.

Nosso nobre agora se aventura numa micro empresa de informática aberta em João Pessoa e ainda continua com a mania feia de não querer se mostrar na internet (que coisa, viu?). Sorte que roubei a foto acima há muito e vocês tem uma ideia de como o moço é.

Fiquem agora com um apaixonado relato de um pernambucano forte, com uma das mais fodásticas músicas que, mesmo sem ser pernambucano, cantarolo fácil e bem!


Lenine: potencial evidenciado na fervorosa letra!

Eu estava louco pra participar do “Amigo Convidado” do blog do TH, mas tinha medo do meu texto ficar abaixo do nível das pessoas que escrevem aqui. Bem, como todo pernambucano cabra da peste, a coragem veio hoje e resolvi escrever sobre uma das músicas que mais dão orgulho do meu estado do coração. Nasci em Pernambuco, morei em Alagoas e agora estou na Paraíba. Em cada lugar eu deixo um pouco de mim, mas em Recife me criei e aprendi a valorizar a cultura que tanto é festejada na minha terra. Terra de nordestinos importantes demais, ainda mais no mundo da música. Desde pequeno a gente aprende a dar importância a músicos do “naipe” de Bezerra da Silva, Jorge de Altinho, Alceu Valença, Luiz Gonzaga (salve o mestre!), Dominguinhos (salve o outro), Orlando Dias e muito mais. Meu estado possui uma mistura maravilhosa de ritmos e danças típicas e tem com muito orgulho o maior carnaval do meu Brasil!!!!
Viver é muito bom, mas viver carregando a naturalidade pernambucana é melhor ainda. Não sou nem um pouco bairrista hein? Hehahhaha. Chega de papo e vamos à música: nossos cantores populares criam músicas que se tornam verdadeiros hinos do estado, pois falam demais de nossa cultura, com elementos que só a gente conhece e canta junto, com paixão. E acho legal que essa coisa tão “caseira” possa estar ao alcance do grande Brasil e até do mundo! Lenine fez um dos melhores retratos de nosso estado, dizendo com toda razão “sou coração do folclore nordestino”. Pernambuco, junto a tantos estados maravilhosos que constituem nossa região, tem uma grande parcela de cultura folclórica, e faz o nordeste ter uma carga cultural tão forte que é lamentável que “filhas da puta” como a tal Mayara Petruso não entendam e não fique feliz de nos ter como irmãos.
Leão do Norte é mais do que um hino pernambucano. É o retrato fiel de um estado que sente prazer em divulgar o que oferece de melhor dentro de si. E choro toda vez que ouço novamente.

FELIPE RAMIREZ



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LEÃO DO NORTE
Composição: Lenine e Paulo César Pinheiro

Sou o coração do folclore nordestino
Eu sou Mateus e Bastião do Boi Bumbá
Sou o boneco do Mestre Vitalino
Dançando uma ciranda em Itamaracá
Eu sou um verso de Carlos Pena Filho
Num frevo de Capiba
Ao som da orquestra armorial
Sou Capibaribe
Num livro de João Cabral
Sou mamulengo de São Bento do Una
Vindo no baque solto de Maracatu
Eu sou um auto de Ariano Suassuna
No meio da Feira de Caruaru
Sou Frei Caneca do Pastoril do Faceta
Levando a flor da lira
Pra Nova Jerusalém
Sou Luis Gonzaga
E eu sou mangue também

Eu sou mameluco, sou de Casa Forte
Sou de Pernambuco, sou o Leão do Norte

Sou Macambira de Joaquim Cardoso
Banda de Pife no meio do Canavial
Na noite dos tambores silenciosos
Sou a calunga revelando o Carnaval
Sou a folia que desce lá de Olinda
O homem da meia-noite puxando esse cordão
Sou jangadeiro na festa de Jaboatão

Eu sou mameluco, sou de Casa Forte
Sou de Pernambuco, sou o Leão do Norte

TH - Pernambucanos sabem o que é bom! :)

* A música foi gravada também por Elba Ramalho pro disco "Leoa do Norte", de 1996. A versão do vídeo abaixo é a do acústico MTV de Lenine, lançado em 2006!



sábado, 6 de novembro de 2010

RESPOSTA AOS ATAQUES XENOFÓBICOS CONTRA NORDESTINOS VIA TWITTER

Elba Ramalho: música provocativa que foi alvo de censura na década de 80


A música "Nordeste Independente", de autoria de Ivanildo Vilanova e Bráulio Tavares, o "raio da cilibrina", consistia no momento mais ovacionado dos shows que Elba Ramalho fazia por volta de 1983. Na época, a cantora havia sido eleita a maior estrela da música brasileira pela revista Veja, e, ao lançar o trabalho seguinte, "Do Jeito Que a Gente Gosta" (1984), resolveu incluir a gravação ao vivo para fechar o disco. O resultado foi catastrófico: de tão aplaudida que a música era nos espetáculos, acabou sendo alvo dos censores, que não engoliram muito a ideia de "segregração" que era brincada na letra.
Na realidade, era uma brincadeira provocativa em tom de protesto, ante o descaso dos políticos e a hostilidade das demais regiões brasileiras com o Nordeste, desde aquela época sofrendo com as consequências da seca e marginalizado por seu povo simplório, de sotaque "feio" (segundo eles) e a aparente pobreza. O Lp era vendido com um lacre, deixando clara a proibição da radiodifusão da música em questão.
A censura já deixou o Brasil faz tempo, mas será que podemos falar a mesma coisa do preconceito? Os ataques de xenofobia na rede social Twitter contra os nordestinos, oriundos do resultado das pesquisas das eleições (que mostraram que Dilma teve mais votos na nossa região) revelam que a questão continua mais ativa e estampada do que nunca...

COMENTÁRIO DE TH:
Não acho que segregação alguma deva ser exemplo pra nada. A própria letra da música prega isso e não acho tão válido...a diversidade regional e cultural é justamente o que faz esse país ser tão rico e completo. Somos todos iguais, com nossas marcas regionais expostas em nossa voz, com problemas típicos (seca no Nordeste, violência no Rj, poluição em SP). Não há o que se falar em hierarquia de nenhuma sorte...
Entretanto, a música se faz oportuna pois é sempre bom relembrar gente de memória tão curta da importância que o Nordeste tem no contexto sócio-econômico e do carisma da maior parte de seus descendentes. E Elba, apesar de todo protesto, deixa claro que a brincadeira tem intenção não apenas de peitar, mas de conscientizar. E sempre estarei com ela nisso ;)


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NORDESTE INDEPENDENTE
Elba Ramalho. Ivanildo Vilanova e Bráulio Tavares

Já que existe no sul esse conceito
Que o nordeste é ruim, seco e ingrato
Já que existe a separação de fato
É preciso torná-la de direito
Quando um dia qualquer isso for feito
Todos dois vão lucrar imensamente
Começando uma vida diferente
De que a gente até hoje tem vivido
Imagina o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

Dividindo a partir de Salvador
O nordeste seria outro país
Vigoroso, leal, rico e feliz
Sem dever a ninguém no exterior
Jangadeiro seria o senador
O cassaco de roça era o suplente
Cantador de viola o presidente
O vaqueiro era o líder do partido
Imagina o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

Em Recife o distrito industrial
O idioma ia ser nordestinense
A bandeira de renda cearense
“Asa Branca” era o hino nacional
O folheto era o símbolo oficial
A moeda, o tostão de antigamente
Conselheiro seria o inconfidente
Lampião, o herói inesquecido
Imagina o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

O Brasil ia ter de importar
Do nordeste algodão, cana, caju
Carnaúba, laranja, babaçu
Abacaxi e o sal de cozinhar
O arroz, o agave do lugar
O petróleo, a cebola, o aguardente
O nordeste é auto-suficiente
O seu lucro seria garantido
Imagina o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

Se isso aí se tornar realidade
E alguém do Brasil nos visitar
Nesse nosso país vai encontrar
Confiança, respeito e amizade
Tem o pão repartido na metade,
Temo prato na mesa, a cama quente
Brasileiro será irmão da gente
Vai pra lá que será bem recebido
Imagina o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

Eu não quero, com isso, que vocês
Imaginem que eu tento ser grosseiro
Pois se lembrem que o povo brasileiro
É amigo do povo português
Se um dia a separação se fez
Todos os dois se respeitam no presente
Se isso aí já deu certo antigamente
Nesse exemplo concreto e conhecido
Imagina o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

Povo do meu Brasil
Políticos brasileiros
Não pensem que vocês nos enganam
Porque nosso povo não é besta


TH - Não mesmo!! :)
(Música já consoante no blog antigo no dia 25 de Junho de 2007!)


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

FUNÇÃO NO CANCIONEIRO BRASILEIRO: EMOCIONAR!

Nana Caymmi não liga quando falam que só canta "música de fossa"


Neste ano de 2010 estreou no cinema brasileiro o mais novo documentário do diretor francês apaixonado por música brasileira, Georges Gachot (o mesmo que realizou, em 2004, o "Música é perfume", sobre a vida musical de Maria Bethânia). Muito me interessou contemplar esse novo trabalho do cineasta (Rio Sonata), pois é referente a uma grande "diva" a qual sempre tive vontade de conhecer mais ainda, nos mínimos detalhes de sua saga: a magnífica Nana Caymmi!
Filha de Dorival, Nana sempre me representou candura e sensibilidade. Consegue impor uma força inacreditável nas interpretações, sempre primando pela melancolia, estilo no qual se sente bastante em casa. Até quando canta canções mais vibrantes do cancioneiro do pai, faz de maneira melancólica, e justifica: "Pode não parecer, mas a melancolia quase sempre esteve nos versos e nos acordes de meu pai". Ironicamente, Nana sempre manteve um sorriso agradável quando a via nas entrevistas, e tem a seu favor o dom de não economizar muito pra dizer suas verdades. Lembro de um show, aqui em Maceió, onde a cantora se dizia bastante decepcionada com a falta de reconhecimento do Brasil com as maravilhosas composições do pai, e que a maioria dos músicos só buscavam compositores mais óbvios.
Em 2008, quando seu pai morreu, o país se solidarizou com sua dor e de seus irmãos. O talento decididamente foi herdado, mas se engana quem pensa que Nana só fica restrita ao repertório de seu pai. Ela é perfeita intérprete de compositores variados - de Chico Buarque, a Tom Jobim e até Roberto Carlos! E em todos deposita suas belas lágrimas, convidando o ouvinte a deliciosamente se esbaldar junto...

Fortíssima candidata a uma futura "Artista do Mês" daqui do blog! :) Abaixo, a bela releitura da carioca para a música de outra grande "rainha das fossas".

Cartaz do Rio Sonata. À direita, Nana e Dori: cumplicidade, amor e respeito pelo "acalentador" genitor...





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TARDE TRISTE
Nana Caymmi. Maysa

Tarde triste me recorda
Outros tempos
Que saudade
Que saudade

Vivi só
Num turbilhão de pensamentos
De saudade
De saudade

Por onde andará quem amei
Será que também vive assim
Sofrendo como só eu sei
Pensando um pouquinho em mim

Tarde triste
Noite vem
Já está descendo
E eu sozinha, sofrendo


TH - :´(



segunda-feira, 1 de novembro de 2010

ARTISTA DO MÊS: ZÉLIA DUNCAN!


A mais versátil e mutante cantora brasileira!



Estou me acostumando comigo.
Revendo a casa os vizinhos
E os vazamentos e isso já não me assusta mais (...)
Se volto pra mim
Pouso na terra
E é macio saber
Que isso não me assusta
E "Me Gusta" voltar..."


Quem ouve o início do DVD "Sortimento Vivo", de 2002, testemunha uma das melhores sintonias entre artista e público existentes na música brasileira.
Aqui no EnTHulho, eu costumo falar dos artistas de maneira imparcial, fazendo leves críticas aqui, elogios um pouco mais acalorados acolá, porém nunca saí da medida exata. Estou prestes a fazê-lo, agora.
Impossível não mencionar a importância e o fascínio que essa mulher exerce em minha vida. E a postura da mesma em entrevistas, shows, camarins, twiters, e-mails respondidos, é igual: carisma, simpatia e inteligência esbanjada. Sorriso brejeiro, forte presença cênica, uma voz grave potente que se manifesta conforme manda o sentimento da canção e o principal: tem consciência da função que opera na música brasileira.
Não economizo elogios pois sei que Zélia merece muito mais do que o reconhecimento que já tem. Poucas artistas conseguem fazer álbuns tão milimetricamente trabalhados e diferentes um do outro, ou ainda escolher parcerias tão bem sintonizadas - aliás, na música brasileira, é raro quem ainda não gravou com Zélia. Ela tem esse dom de deixar o "partner" "em casa" ao seu lado, e alcança a mágica da condução equilibrada do dueto. Por isso tanta gente a aceita de pronto e chega junto :)
Ms. Duncan também ousa bastante. Às vezes, as vendagens pouco importam ante a vontade de fazer registros que tanto quer, como na fase do "Eu Me Transformo em Outras", ou ainda vai além, aventurando-se em tantos projetos paralelos como nos "Mutantes" e no disco que lançou junto a Simone. Não comentei antes mas, além de intérprete competente, é uma compositora ímpar! E foram justamente suas composições certeiras, confessionais e íntimas que pontuaram minha identificação e a falta de pudor de afirmar: minha cantora preferida de todos os tempos, tendo, cada álbum seu, uma importância espetacular em cada fase de minha vida.
Acompanho sua carreira há muuuuito tempo e ela continua com essa mania de me surpreender. Há duas semanas a vi no Som Brasil cantando junto ao Marcos Valle "Eu Preciso Aprender a Ser Só", e não contive a emoção...
Ao longo do mês, o blog ficará repleto de matérias especiais sobre sua carreira, com direto a listas afetivas e curiosidades de Zélia. E, abaixo, uma mini biografia improvisada, desta vez assinada por este que vos escreve!
Salve Zélia Duncan!




Zélia nasceu em 1964 em Niterói e, aos 6 anos de idade, foi para Brasília, onde ficou até os 22 anos. Apesar de amar sua terra, foi na capital federal que teve todas as oportunidadades musicais possíveis e começou a cantar profissionalmente, na extinta Sala Funarte que, na época, abria concorrência para que novos talentos se apresentassem. Tendo um tímido reconhecimento, aos poucos Zélia Cristina (como assinava seu nome artistico na época) foi convidada para estender seus shows além de Brasília e a abrir para artistas mais consagrados, tendo seu grande passo ao fazer a abertura do show de Luiz Melodia, a convite do próprio.
Em 1987, de volta ao Rio de Janeiro, contando com a experiência adquirida, Zélia decide montar seu primeiro show agora em terras cariocas e assim o fez, no Botanic. O repertório já mostrava o largo flerte que a moça tinha com Itamar Assumpção e ela primava por composições menos conhecidas.

Em 1989, pensou fazer algo mais ousado, diferente, audacioso e, ao conhecer a diretora teatral Ticiana Studart, vinda de Nova Iorque e que tinha planos parecidas. produziram juntas o show “Zélia Cristina no Caos”. O nome do show foi dado devido ao stress que sentiram ao perceberem que os recursos eram precários, assim como caótico era produzir no Brasil, em espaços também caóticos, e onde a violência é um caos e o tratamento dado à cultura era também um caos. Nada mais propício! Mas o caos todo lhe rendeu o convite da Eldorado para gravar um disco.
Foi em 1990, o LP 'Outra Luz", disco com instrumentais precários, mas que, desde então, já mostrava que o caos rendeu o melhor dos frutos, e vimos Zélia já apostando em composições próprias, misturadas com versões de Kenny G, Rita Lee, com participação afetiva de Luiz Melodia. Destaque nesse disco, pra mim, para 'Super Homem, a canção", uma das interpretações mais sensíveis da excelente letra de Gilberto Gil.
Devido à insatisfação com o resultado, Zélia resolveu passar um semestre nos Emirados Árabes, cantando diariamente num hotel, numa espécie de "estágio', o que foi primordial pra sua carreira. De volta ao Brasil, assinalando agora como "Zélia Duncan", ressurge num período marcado por grandes aparições da música brasileira dos anos 90 como Marisa Monte, Cássia Eller e Adriana Calcanhotto. Conhecer Guto Graça Melo - grande produtor, compositor responsável pela produção musical da Rede Globo e de vários filmes, foi um acontecimento interessante, o que levou a parceria de ambos para o lançamento de futuros registros de shows seus.

Em 1994, lança, pela WEA, o que é considerado pelos seus maiores fãs o seu primeiro disco, "Zélia Duncan", marcado pela versão de "Catedral", pro sucesso de Tanita Tikaram. Mas o disco teve muito mais! "Nos Lençois desse Reggae" entrou na trilha de "Confissões de adolescente", a própria "Catedral" estourou nas rádios - era intrigante quererem saber quem era aquela cantora de voz grave e suave cantando versos tão românticos e íntimos e estourando nos primeiros colocados de todos os rankings. Minha preferida do disco é a também famosa "Não Vá Ainda" - com certeza, com uma participação enorme na vida afetiva de TH :) Vale destacar também a releitura de "Lá Vou Eu", iniciando assim uma bela e acertada parceria entre Zélia e sua compositora, uma tal de Rita Lee... ;)
E veio o reconhecimento: prêmios de vendagens, shows país adentro. Lança a seguir dois álbuns que eu considero os melhores de sua carreira: "Intimidade" (1996) e "Acesso" (1998), fazendo Zélia agora excurisionar pela Europa, Japão e outros países.

Na década de 2000, muda seu estilo musical ao lançar o versátil "Sortimento", alcançando mais sucesso ainda e colocando os hits "Me Revelar" e "Alma" nas paradas. "Alma" virou tema de novela e a música de abertura do show "Sortimento Vivo", cujo registro virou um belo DVD no ano seguinte.
A partir de então Zélia passou a ousar mais em seus estilos musicais. Lança em 2004 um projeto paralelo intitulado "Eu Me Transformo em Outras', onde homenageia seus maiores ídolos musicais, como Ella Fitzgerald, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Cartola...com uma banda criada especialmente pro disco/show. Em 2005, ainda "contagiada" pelo espírito 'mutante" de seus trabalhos anteriores, investe no arrojado "Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band", disco que tem metade de seu repertório Pop, e metade (literalmente) elitizado e com resquícios da capacidade de inovar que vinha apresentando. Ao mesmo tempo, recebe o convite para ser a nova integrante dos Mutantes, onde fica até 2007, saindo para retomar sua carreira solo. Houve ressentimentos? A discrição de Zélia lhe faz calar sobre o tema, porém Sérgio Dias não economizou nas declarações polêmicas: "ela não é uma mutante, e sim uma transformer".

Com o fim (e o registro) da turnê do Pré-Pós-Tudo, Zélia, que, em 2005, havia participado como convidada do show de Simone cantando "Não Vá Ainda", "A Idade do Céu" e "Eu Tô Voltando", resolve lançar um disco com a baiana, de nome "Amigo É Casa". Com um repertório pouco óbvio, que une o melhor do inicio de carreira de Simone e a faceta mais "cult" de Zélia, o disco foi bem aceito e fez ambas excursionarem por todo o país, numa sintonia pouco vista em toda música brasileira.

Chegamos a 2009 e Zélia retoma sua carreira individual com o belo e sensível disco "Pelo Sabor do Gesto", com produção de John do "Pato Fu", participação vocal de Fernandinha Takai e lindas canções, num semblante que remete ao "folk' tão atuante no começo de sua carreira e arranjos quase "beatlicos". Zélia tá aí, pra provar que sabe o papel importante que ostenta na música brasileira e que faz jus a toda confiança depositada pelos fãs, superando-se a cada projeto - paralelo ou próprio!








Presente pros leitores do EnTHulho e, ao meu lado, Zélia em 2010: aspereza e maturidade musical.




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PELO SABOR DO GESTO
Alex Beaupain. Versão: Zélia Duncan
Citação de Fernando Pessoa: fragmentos (1933)

Quem já tocou o amor pelo sabor do gesto?
Sentiu na boca o som? Mordeu fundo a maçã?
Na casca, a vida vem tão doce e tão modesta
Quem se perdeu de si?

Eu já toquei o amor pelo sabor do gesto
Confesso que perdi, me diz quantos se vão?
Paixões passam por mim, amores que têm pressa
Vão se perder em si

Se o amor durou demais, bebeu nas suas veias
Seus beijos de mentira não chegam muito longe
Paixões correm por mim, são só suaves febres
Seus beijos mais gentis derretem pela neve
Pra que tocar o amor pelo sabor do gesto
Se o gosto da maçã vem sempre indigesto?
Amarga essa canção, os dias e o resto
Se perde como um grão

Mas se eu ousar amar pelo sabor do gesto
Te empresto da maçã, vai junto o coração
Esquece o que eu não fiz
Te sirvo o bom da festa
De um jeito mais feliz

Paixões correm por mim, eu sei tudo de cor
carinho sem querer me cansa e me dói
Se o amor vem pra ficar, faz tudo mais bonito
Me basta ter na mão e o corpo tem razão

“Há em tudo que fazemos
Uma razão singular:
É que não é o que queremos.
Faz-se porque nós vivemos,
E viver é não pensar.
Se alguém pensasse na vida,
Morria de pensamento.
Por isso a vida vivida
É essa coisa esquecida
Entre um momento e um momento."


TH - Uma verdadeira oração...


domingo, 31 de outubro de 2010

RANKING - ATUALIZAÇÃO MENSAL (Outubro 2010)



Antes de fazer menção à parada, uma errata gravíssima: na matéria do dia 5 de Outubro, ao invés da foto de Jovelina Pérola Negra, eu pus a de Clementina de Jesus. Que falta grave!! Ao lado, a verdadeira imagem de Jovelina! O alerta me foi dado pelo querido amigo e leitor Paulo Victor Oliveira. Obrigado, Paulo!
Outubro foi o mês mais cult do EnTHulho. Não só pela presença constante de Chico Buarque - o artista do mês. Mas por que realmente tivemos atrações bem elitizadas por todos esses 30 dias. Da música raiz de Renato Teixeira, ao rock consciente do Rappa, passando pelas classudas Jane Duboc e Elis Regina. A matéria dos 20 hits de MPB para crianças talvez quebre um pouco esse estigma, e foi uma das que mais me deu prazer fazer. Para complementar, excelentes relatos dos amigos musicais convidados Rodrigo Ferraz, João Dionísio Soares e Guilherme Staush. Sobre o último, eu gostaria de convidar todos a lerem em seu blog a Revista Memória da TV, volume 2, assinada por vários amantes de televisão e contando também com uma matéria minha sobre os Festivais da Música Brasileira. Quero deixar registrado que foi muito bom exprimir um pouco do trabalho que desenvolvo no EnTHulho com um blog tão referencial e conceituado como o Memória. Acessem aqui!

Sobre a parada do mês, Chico Buarque conseguiu a proeza de quebrar a hegemonia de Zélia Duncan no primeiro lugar. Também, o que não faltou foi música de Chico esse mês - no total ele conta com 17. E o ranking modificou bastante: Milton Nascimento, Djavan, Fernanda Porto, Gal Costa, Elis Regina, Zizi Possi, Monica Salmaso, Moraes Moreira, Lucinha Lins, Guilherme Arantes, Nara Leão, Toquinho, Daniela Mercury, Raul Seixas, Nana e Dorival Caymmi, Roberto Carlos, Fafá de Belém, Balão, Trem, Xuxa, Clara Nunes...foram muitos os artistas que apareceram durante o mês aqui e mudaram suas posições. E entraram outros como Os Trapalhões, Miúcha, Ângela Maria, 14 Bis, Jovelina, Jane, Renato.


Postando o ranking e indo votar, mas agora nos candidatos à presidência e governo... (desestimulo total...)



Matérias sobre o artista do mês (clique para conferir):



Azul claro: estreias;
Azul-escuro: artistas que subiram;
Vermelho: artistas que desceram
Preto: artistas que mantiveram a posição



1º CHICO BUARQUE – 17 músicas (+5)
2ª ZÉLIA DUNCAN - 14 músicas (-1)
3ª MOSKA - 12 músicas (-1)
4ª MARISA MONTE – 11 músicas (-1)
5ª CÁSSIA ELLER - 10 músicas (-1)
6ª MARIA BETHÂNIA - 10 músicas (=)
7ª RITA LEE – 9 músicas (=)
8º CAETANO VELOSO - 8 músicas (+1)
9º DJAVAN - 8 músicas (+1)
10ª ADRIANA CALCANHOTTO - 7 músicas (-2)
11ª ELIS REGINA - 7 músicas (+10)
12ª GAL COSTA - 7 músicas (+6)

13º LENINE - 7 músicas (-2)
14ª MARINA LIMA - 7 músicas (-2)
15ª VANESSA DA MATA - 7 músicas (-2)
16º CAZUZA - 6 músicas (-2)
17º LEGIÃO URBANA - 6 músicas (-2)

18º MILTON NASCIMENTO – 6 músicas (+4)
19º NANDO REIS - 6 músicas (-3)
20ª NARA LEÃO – 6 músicas (+3)
21ª ANA CAROLINA - 5 músicas (-4)
22ª DANIELA MERCURY - 5 músicas (+6)
23ª ELIANA PRINTES - 5 músicas (-3)
24º GILBERTO GIL - 5 músicas (-5)

25º GUILHERME ARANTES - 5 músicas (+6)
26º OS PARALAMAS DO SUCESSO - 5 músicas (-2)
27ª SIMONE - 5 músicas (-2)
28º TOQUINHO - 5 músicas (+20)
29º ZECA BALEIRO - 5 músicas (-3)
30º ALCEU VALENÇA - 4 músicas (-3)
31º ENGENHEIROS DO HAWAII - 4 músicas (-2)
32º FLÁVIO VENTURINI - 4 músicas (-2)
33º GONZAGUINHA – 4 músicas (-1)
34ª NANA CAYMMI - 4 músicas (+9)
35º RAUL SEIXAS - 4 músicas (+10)
36º ROBERTO CARLOS – 4 músicas (+47)

37º SKANK - 4 músicas (-3)
38º VINICIUS DE MORAIS - 4 músicas (-4)

39ª MEMÓRIA INFANTIL: XUXA - 4 músicas (+10)
40º ZÉ RAMALHO - 4 músicas (-5)
41º MEMÓRIA INFANTIL: BALÃO MÁGICO - 3 músicas (+56)
42º CHICO CÉSAR - 3 músicas (-6)
43ª CLARA NUNES - 3 músicas (+17)
44º DORIVAL CAYMMI - 3 músicas (+72)
45ª FERNANDA ABREU - 3 músicas (-8)
46º HERBERT VIANNA - 3 músicas (-8)
47º IVAN LINS - 3 músicas (-8)
48º JORGE VERCILO - 3 músicas (-8)
49º LULU SANTOS - 3 músicas (-8)

50ª MONICA SALMASO - 3 músicas (+26)
51º OS MUTANTES - 3 músicas (-9)
52º O RAPPA - 3 músicas (+26)
53º PATO FU - 3 músicas (-9)
54ª RITA RIBEIRO - 3 músicas (-8)
55ª ROBERTA SÁ - 3 músicas (-8)

56º MEMÓRIA INFANTIL: TREM DA ALEGRIA - 3 músicas (+30)
57º ADONIRAN BARBOSA – 2 músicas (-7)
58ª ALZIRA ESPÍNDOLA - 2 músicas (-7)
59º ARNALDO ANTUNES - 2 músicas (-7)
60º BARÃO VERMELHO - 2 músicas (-7)
61ª BRUNA CARAM - 2 músicas (-7)
62ª BELLÔ VELOSO - 2 músicas (-7)
63º CAPITAL INICIAL - 2 músicas (-7)
64º CARLINHOS BROWN – 2 músicas (-7)
65º CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI - 2 músicas (-7)
66ª CÉU - 2 músicas (-7)
67º ED MOTTA - 2 músicas (-6)
68ª ELBA RAMALHO - 2 músicas (-6)
69ª ELIZETH CARDOSO – 2 músicas (-6)
70ª ELZA SOARES - 2 músicas (-6)
71ª FAFÁ DE BELÉM – 2 músicas (+50)
72ª FERNANDA PORTO - 1 música (+57
)
73ª FERNANDA TAKAI - 2 músicas (-8)
74º ITAMAR ASSUMPÇÃO - 2 músicas (-8)
75º JAY VAQUER – 2 músicas (-8)
76º JORGE BEN - 2 músicas (-8)
77ª INTERNACIONAL CONVIDADA: JULIETA VENEGAS - 2 músicas (-8)
78ª KÁTIA B - 2 músicas (-8)
79º KID ABELHA - 2 músicas (-8)
80ª LEILA PINHEIRO - 2 músicas (-8)
81ª CANTRIZ: LETÍCIA SABATELLA - 2 músicas (-8)
82º LOS HERMANOS - 2 músicas (-8)
83ª CANTRIZ: LUCINHA LINS - 2 músicas (+34)
84ª MARIA RITA - 2 músicas (-8)
85º MORAES MOREIRA – 2 músicas (+63)
86º NEY MATOGROSSO – 2 músicas (-9)
87º OSWALDO MONTENEGRO - 2 músicas (-8)
88ª PATRICIA MARX - 1 música (-8)
89º PEDRO LUIS E A PAREDE - 2 músicas (-8)
90ª PITTY - 2 músicas (-8)
91ª SELMA REIS - 2 músicas (-7)
92º TOM ZÉ - 2 músicas (-6)
93º VEGA - 2 músicas (-7)
94ª VERÔNICA SABINO - 2 músicas (-6)
95º WADO – 2 músicas (-6)

96ª ZIZI POSSI – 2 músicas (+83)
97º 14 BIS – 1 música *ESTREIA
98ª ALICE RUIZ - 1 música (-8)
99ª ANA CAÑAS – 1 música (-8)
100ª ANELIS ASSUMPÇÃO - 1 música (-8)

101ª ÂNGELA MARIA – 1 música *ESTREIA
102ª ANGELA RO RO - 1 música (-8)
103º ANTONIO CARLOS NÓBREGA - 1 música (-8)
104ª AS CHICAS – 1 música (-8)

105º MEMÓRIA INFANTIL: AQUARIOUS - 1 música (-9)
106ª BANDA REFLEXU’S – 1 música (-9)
107º BANDA VEXAME – 1 música (-8)
108ª BEATRIZ AZEVEDO – 1 música (-8)
109ª BETH CARVALHO - 1 música (-8)
110ª BEBEL GILBERTO - 1 música (-8)
111ª BIQUINI CAVADÃO - 1 música (-8)
112º CARLOS MOURA - 1 música (-8)
113ª CARMEM MIRANDA - 1 música (-8)
114º MEMÓRIA INFANTIL: CICLONE - 1 música (-8)
115º CIDADE NEGRA - 1 música (-8)
116º CLAUDIO NUCCI - 1 música (-8)
117º COMADRE FLORZINHA (-8)
118º CORDEL DO FOGO ENCANTADO - 1 música (-8)

119ª DANNI CARLOS - 1 música (-8)
120ª DALVA DE OLIVEIRA – 1 música (-8)
121ª DAÚDE – 1 música (-8)
122º DEMÔNIOS DA GAROA – 1 música (-8)
123º DOMINGUINHOS - 1 música (-8)
124ª INTERNACIONAL CONVIDADA: DULCE PONTES - 1 música (-7)
125º EDU LOBO - 1 música (-7)
126º EMÍLIO SANTIAGO – 1 música (-7)
127º ERASMO CARLOS - 1 música (-5)
128ª FERNANDA GUIMARÃES - 1 música (-4)
129º FRED MARTINS - 1 música (-5)
130º GABRIEL PENSADOR - 1 música (-5)

131º GERALDO AZEVEDO - 1 música (-5)
132º GERALDO VANDRÉ - 1 música (-5)
133ª HELENA ELIS - 1 música (-5)
134º HERÓIS DA RESISTÊNCIA – 1 música (-5)
135º IRA – 1 música (-5)
136ª ISABELLA TAVIANI - 1 música (-5)

137ª JANE DUBOC – 1 música *ESTREIA
138º JESSÉ -1 música (-6)
139ª JOVELINA PÉROLA NEGRA – 1 música - *ESTREIA
140ª LEILA MARIA - 1 música (-7)
141º LOBÃO - 1 música (-7)
142ª LUCIANA MELLO - 1 música (-7)
143º LUDOV – 1 música (-7)
144º LUPICÍNIO RODRIGUES – 1 música (-6)
145º INTERNACIONAL CONVIDADO: MADREDEUS - 1 música (-6)
146ª MARIA GADU – 1 música (-6)
147ª MARIANA AYDAR – 1 música (-6)
148ª MARTINÁLIA - 1 música (-6)
149ª MAYSA - 1 música (-6)
150ª INTERNACIONAL CONVIDADA: MERCEDES SOSA – 1 música (-6)
151º METRÔ – 1 música (-6)
152º MIÚCHA – 1 música *ESTREIA
153º MOINHO - 1 música (-7)
154º MOPHO – 1 música (-7)
155ª NA OZETTI - 1 música (-6)
156º NASI - 1 música (-6)
157º NILA BRANCO - 1 música (-6)
158º INTERNACIONAL CONVIDADO: NUNO MINDELLIS - 1 música (-6)
159º MEMÓRIA INFANTIL: OS TRAPALHÕES – 1 música*ESTREIA
160º OTTO – 1 música (-7)
161ª PAULA FERNANDES - 1 música (-7)
162ª PAULA LIMA - 1 música (-7)
163º PAULINHO DA VIOLA - 1 música (-7)
164º RAIMUNDO FAGNER – 1 música (-7)
165ª RENATA ARRUDA - 1 música (-7)

166º RENATO TEIXEIRA – 1 música *ESTREIA
167º SECOS & MOLHADOS - 1 música (-8)
168ª TAMY – 1 música (-8)
169º TIM MAIA - 1 música (-8)
170° TITÃS – 1 música (-8)
171º TRIO VIRGULINO - 1 música (-8)
172º MEMÓRIA INFANTIL: TURMA DA MÔNICA - 1 música (-8)
173º VANDER LEE - 1 música (-8)
174ª VANGE LEONEL – 1 música (-8)
175ª VANIA BASTOS - 1 música (-8)
176ª WANDERLÉA - 1 música (-8)



TH - October project ends...

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

ÚLTIMA FAIXA: A Griffe Buarque de Hollanda (Crônica)



Desde pequeno lembro que Chico Buarque representava um sentimento próximo da unanimidade em termos intelectuais. Os mais velhos não admitiam que falassem mal de sua obra, e os mais novos mantinham o respeito à opinião adulta em massa.
A priori, como toda criança, achava Chico “coisa de gente velha” e não via graça nenhuma nas canções. Era comum ouvir “Cálice” no mais alto volume no aparelho de meu avô, e, na minha simplicidade, zombar dos erros de pronuncia “pai, afaste de mim e se cale-se” ou estranhar a parceria com Milton Nascimento em “O que será, que será” - era esquisito ouvir dois homens de vozes tão diferentes interagindo tão bem. Chico só se fazia atraente aos meus ouvidos quando chegava próximo do meu universo infantil cantando as músicas dos “Saltimbancos” ou na acertada parceria com Simone com a bela “Iolanda” (que me remete a uma tia já falecida, que tinha este nome).
Na adolescência, a letra de “Construção” era alvo favorito de análises gramaticais das professoras de português, lembro de lições sobre a mesma na sexta e na oitava série, e até de uma prova que tinha a letra inteira numa questão. E tentar decorá-la foi talvez meu primeiro “encanto” e familiaridade com a obra de Chico. Daí a se aprofundar foi um pulo - com as aulas de História e a criação de alguma consciência política, vieram as identificações com as ideias de Chico, de um bom senso sem tamanho. Passei a saber mais de sua vida. Maravilhei-me com as peças teatrais escritas, os poemas realizados. Encontrei músicas tão políticas, emblemáticas, românticas, verdadeiras, piadistas, sinceras, humanas e divertidas! Jogos de palavras geniais e uma capacidade quase sobre-humana de colocar o eu-lírico feminino em evidência e com uma perfeição espetacular.
Passada a fase do encanto cego, passei a digerir mais o pensamento de que, tudo em demasia, é cansativo. O culto a Chico, de tão grande que se perfez ou inalcançável que se firmou, inevitavelmente trouxe uma “dose de realidade’. Chico não é semideus e, a despeito da grandiosidade de sua obra, é um brasileiro com tantos defeitos quantos forem necessários. É conhecido seu lado mulherengo, verificado até em pequenos escândalos não generalizados, assim como a gente aceita o fato dele, hoje em dia, não lançar nada mais do que o óbvio e enfadonho, querendo justificativa no “já ter contribuído demais com a música brasileira e não precisar provar mais nada”.
O que os fanáticos e admiradores de suas melhores obras precisam enxergar é que a grandiosidade se verifica justamente no Chico humano. O que tem mau humor, o que trai, o que toma decisões políticas discordantes (vi o cumulo: pessoas apoiando Dilma apenas porque Chico disse que votaria nela!). A griffe Buarque de Hollanda às vezes se comporta como “as vitrines” – são atraentes a ponto de chamar muita gente que sequer entende o que se está por trás do produto. Ele não deveria ser quase unanimidade ao ser elencado quando se quer mostrar que é intelectual, a ponto de persegui-lo por todos os seguimentos e parâmetros inimagináveis. O efeito obtido é exatamente o oposto: ao invés de ser chic e Cult, nada mais são do que pessoas vazias e de opiniões copiadas com papel carbono e da profundidade de um pires.
O Chico humano não deveria ser tão formador de opiniões como é. Ele não é muito diferente de tantos cidadãos que estão por aí e, como “gente humilde’, não tem mesmo pretensão de ser! Tem suas opiniões como qualquer outro, até sobre assuntos que não dizem nada a ele, mas não há necessidade alguma de endeusá-lo por conta das glórias de suas obras.
Razoabilidade ainda se pede
!


THIAGO HENRICK

" O que me preocupa é que o Chico Buarque possa querer ser presidente. Afinal de contas, o maior poeta vivo do Brasil deve dar um excelente presidente. Por que? Porque é um excelente poeta. Mas o que a poesia ou a canção tem a ver com a presidência do país? Eu não sei, mas quem aceita a opinião do Chico sobre qualquer coisa que não sejam letras de canções e jogos de futebol no sítio deve saber. RALF J. HOFMAN"


TH - Fui!

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

AMIGO MUSICAL CONVIDADO # 16 - Rodrigo "Dog" do Amaral Schahin



Um jovem ator que entende bastante do universo dramatúrgico!

O cachorro!
Falar do Rodrigo DOG é relembrar aqueles colegas mais participativos das classes de aula. Não, nunca estudamos juntos - a associação vem do fato dele ser um típico "elemento reunitivo", ou seja, aquele que tem facilidade de lidar com todos os integrantes de determinado grupo, sem distinção e com real interesse de interagir o máximo que pode. Nas vezes em que estive em São Paulo, ele fez o possível pra poder combinar encontro com nossos amigos em comum - gerando reuniões agradabilíssimas e divertidas.
Cara de pau também. Não se intimida de ir conhecer os famosos e até de lhes fazer perguntas bem diretas ou impactantes (Vera Zimmerman que o diga...risos).
Se eu pudesse destacar uma qualidade marcante no Rodrigo, sem pensar muito, digo que é o carisma. Mas ele tem muito mais! Como um cãozinho mesmo, ele lhe recebe festivo, faz-se fiel durante toda a vida e rosna feroz quando algo ameace as pessoas que gosta, ratificando sua lealdade...
O rapaz além de tudo é ator e se faz super antenado e interessado em seu universo, que é tão competitivo e dificil.
O EnTHulho lhe deseja cada vez mais sorte na vida e publica o (curto e direto) relato sobre sua música preferida, que é justamente de nosso "Artista do Mês"! Nada mais natural um ator homenagear um grande e renomado escritor de peças.
E muita merda!

Chico fez parte da trilha sonora de muita gente mesmo!



Roda Viva é mais que minha musica favorita, é uma das musicas-tema de uma das peças que mais sonho em montar! E o Chico Buarque, como todos sabemos é muito mais que um letrista bárbaro, é um escritor de livros e peças ímpar.
Roda Viva é A MÚSICA! Uma critica sobre o conformismo da ditadura sem ser didática, até pra não ter problema com a própria censura! A peça fala sobre o que as pessoas fazem pela FAMA, se vale tudo pela FAMA mesmo como que parece, mais atual que isso impossível hoje em dia não? E Chico criou isso faz mais de 40 anos...

... O tempo rodou num instante nas voltas do meu coração...

RODRIGO FERRAZ DO AMARAL SCHAHIN




************************************

RODA VIVA
Chico Buarque de Hollanda


Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...

A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou...

No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...



TH - Mais uma que já relata tudo por si só

*No vídeo, uma nova versão da música, com a ótima participação de Fernanda Porto, trilha sonora do filme Cabra-cega de Toni Venturi. Dirigido por Paulo Prestes Franco para a Trama em 2004.



domingo, 24 de outubro de 2010

ELAS CANTAM CHICO



Muitas são as opiniões sobre Chico Buarque – o artista do mês. Uma das mais atuantes é a de que ele não passa emoção ao cantar (apesar de, “Trocando em Miúdos” ser uma canção perfeita para sua própria voz miúda). Então, para contrabalançar e não deixar suas obras tão emblemáticas e sensíveis sem a interpretação exata, temos inúmeros bons intérpretes de suas composições. Nesse campo, como não poderia deixar de ser, quem mais se destaca são as femininas! Chico tem o dom de compor magníficamente se colocando no lugar das mulheres e isso é captado com louvor pelas melhores cantoras brasileiras. Escolher um Top 10 com as melhores interpretações da obra de Chico Buarque é covardia, mas como o EnTHulho paga por um desafio, vamos lá!
Lista, como sempre, meramente afetiva!

Detalhe: a lista abaixo não necessariamente representa a ótima ilustração acima!




1) ELIS REGINA (Canta "Atrás da Porta")

A interpretação de Elis para “Atrás da Porta” se tornou referência absoluta para as novas intérpretes. Nunca se viu tamanha emoção ou agonia ao agarrar com unhas e dentes uma composição e fazê-la instrumento da própria dor como fez Elis. E os “olhos de adeus” então descritos fizeram todos os telespectadores do MPB Especial na TV Cultura em 1973 e a própria Elis literalmente chorarem. Aplausos de pé e primeiro lugar com louvor em qualquer lista.



2) MARIA BETHÂNIA (Canta "Olhos nos Olhos)


Bethânia tem interpretações bastante interessantes de Chico Buarque, inclusive que lhe renderam coletâneas duplas. Fácil vê-la brilhar em musicas como “Com açúcar, com afeto”, “o meu amor”, “Terezinha”, entretanto a que mais me reaviva a memória é mesmo “Olhos nos olhos’, um belíssimo retrato de “volta por cima” depois do baque, que a cantora nos emociona ao interpretá-la até nos shows mais contemporâneos.

“Quando você me quiser rever. Já vai me encontrar refeita, pode crer. Olhos nos Olhos, quero ver o que você diz. Quero ver como me suporta me ver tão feliz!”

3) GAL COSTA (Canta "Folhetim")

Uma das escolhidas para a nova microssérie da Globo que estreia em Janeiro, sobre a obra de Chico Buarque. Não conheço melhor interpretação que a de Gal Costa, que conquistou todos num dueto irresistível com Chico. O hilário é vê-los juntos na atuação e nunca imaginar que o dono da música é justamente a voz mirrada que se torna mais pequenina e engolida pelo furacão “Gal”.

“Se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim. Por uma coisa à toa, uma noitada boa, um cinema, um botequim”

4) NARA LEÃO (Canta "João e Maria")


Essa beleza foi indicada em maio pela primeira amiga musical convidada do blog, Vera Calvão. A parceria com Nara foi bastante acertada, sobretudo nessa canção, que mostrou o talento e a faceta de Chico pra escrever pros pequenos.

“Agora eu era o herói, e me cavalo só falava inglês. A noiva do cowboy, era você além das outras três”




5) ZIZI POSSI (Canta "Pedaço de Mim")

Confesso que quis colocar a versão da Gal aqui, mas é inegável a importância da interpretação da música para a carreira da super Zizi Possi. Aliás, Maria Izildinha Possi tem coisas bem legais de Chico, e sua voz penetrante e suave é certeira para pontuá-las!

“Ò pedaço de mim. Ó metade afastada de mim. Leva o teu olhar que a saudade é o pior tormento. É pior do que o esquecimento. É pior do que se entrevar”


6) CLARA NUNES (Canta "Apesar de Você")


A sexta posição traz Clara cantando um samba delicioso de Chico. Clara sempre foi ótima pra colocar sua boa energia nas interpretações, e fez esse “sambão” ter um charme a mais. Das que mais aguçam minha memória auditiva afetiva, sem dúvidas!

“Apesar de você, amanhã há de ser um novo dia”






7) MONICA SALMASO (Canta "Ciranda da Bailarina")


Das contemporâneas, Monica, acredito eu, é a que mais tem química com as letras de Mr. Buarque. Tem todo um preparo jazzístico e uma elegante postura cênica que casam bem com a grife Buarque de ser. E “Ciranda da Bailarina”, pra mim, é seu auge!

"Procurando bem, todo mundo tem pereba, marca de bexiga ou vacina. E tem piriri, tem lombriga, tem ameba. Só a bailarina que não tem”


8) ÂNGELA MARIA (Canta "Gente Humilde")


A composição de Chico (que, na verdade, diz que os versos são de Vinicius) praticamente salvou a carreira de Angela, que se encontrava no declínio na época. Apesar de preferir a música com Maria Bethânia (que a interpreta magistralmente em seus shows), eu gosto muito dessa versão também.

“São casas simples, com cadeiras na calçada / e na fachada escrito em cima que é um lar / pela varanda, flores tristes e baldias / como a alegria que não tem onde encostar...”


9) MIÚCHA (Canta "Sobre Todas as Coisas")

Mais uma com uma infinidade de ótimas intérpretes... Zizi, Bethânia, Maria Rita, Nana Caymmi... Mas eu vou destacar a da irmã de Chico, Miúcha, que conseguiu captar com propriedade mais uma música com enfoque eminentemente feminino composta por Chico. Aliás, a eterna “galinha” do espetáculo infantil “Saltimbancos” nunca esteve por aqui!

“Pelo amor de Deus, não vê que isso é pecado? Desprezar quem te quer bem...não vê que Deus até fica zangado...”


10) FAFÁ DE BELÉM (Canta "Sob Medida")


Quem se lembra da matéria dos bafões da música brasileira, sabe que essa música foi praticamente o pomo da discórdia entre as cantoras Simone (que gravou primeiro) e Fafá de Belém, que gravou quase no mesmo ano. Gosto das duas, mas considero a da Fafá mais bonita e emocionante...

“Se você crê em Deus, encaminhe pros céus, uma prece...e agradeça ao senhor, você tem o amor, que merece”





PARA SE TER!



Em 2009, a Som Livre lançou a grande coletânea dupla "Chico Buarque por Eles e Elas", contando um elenco completo de grandes artistas brasileiros recitando a poesia de Chico Buarque. Você pode conferir a relação dos artistas logo abaixo!

CHICO POR ELES!

1. A Rita - Zeca Pagodinho
2. Gente Humilde - Renato Russo e Hélio Delmiro
3. Beatriz - Milton Nascimento
4. Samba do Grande Amor - João Nogueira
5. Samba e Amor -
Caetano Veloso
6. Até o Fim - Zeca Baleiro
7. Cotidiano -
Marcelinho da Lua (com Seu Jorge)
8. Bye Bye Brasil - Ed Motta e João Donato
9. Tatuagem -
Djavan
10. Sonho de um Carnaval - Paulinho da Viola
11. A Banda - Wilson Simonal
12. Roda Viva - Ivan Lins e Nó em Pingo D'Água
13. Construção -
Ney Matogrosso
14. Baticum - Lenine


CHICO POR ELAS:

1. Partido Alto - Cássia Eller
2. Apesar de Você -
Clara Nunes
3. Olhos nos Olhos -
Nara Leão
4. Deixa a Menina -
Ivete Sangalo
5. Com Açúcar, com Afeto - Fernanda Takai
6.Quem Te Viu, Quem Te Vê - Mônica Salmaso
7. Atrás da Porta -
Elis Regina
8. Anos Dourados -
Miúcha
9. O Meu Amor - Maria Bethânia -
Alcione
10. Sobre Todas as Coisas -
Maria Rita
11. A História de Lilly Braun - Maria Gadú
12. Ciranda da Bailarina - Adriana Calcanhoto
13. O Meu Guri -
Beth Carvalho
14. Valsinha -
Monique Kessous


*******************************************

ATRÁS DA PORTA*
Elis Regina. Composição: Frances Hime e Chico Buarque

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei, eu te estranhei
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
Nos teu peito, teu pijama
Nos teus pés ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua


TH - Pausa contemplativa...

* Música já constante no blog antigo, no dia 13 de Dezembro de 2007!


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

ENCANTO INTERIORANO

Renato Teixeira. Artista "da terra", oriundo da cidade grande



Minhas lembranças primeiras de Renato se deram num programa antigo da Rede Record, o "Tom Brasileiro", onde ele dava ênfase a músicas regionais - bem brasileiras. Esbanjando simpatia e dando grandes canjas.

Depois de adulto fiquei conhecendo sua rica obra - e admirado por descobrir que famosas interpretações eram de sua autoria, como "Romaria" eternizada por Elis Regina, ou "Tocando Em Frente", por Maria Bethânia. Enxergo Renato como um verdadeiro artista "da terra" - sua música, em quase totalidade enfoca elementos e nuances seresteiros que lhe credenciam como tal; curiosamente, o cantor/compositor nasceu em Santos, SP. Desde criancinha dado a música, sua primeira "aparição" foi cantando a música "Dadá Maria", de sua autoria, ao lado de Gal Costa, que tinha defendido a canção no festival da Record em 1967.

Trecho retirado do site oficial do compositor:

"Sempre procurei conhecer a nossa história musical, ouvir todas as canções e todos os gêneros. Do samba à música caipira. Em tudo que ouvi sempre deparei com o talento e a vocação dos compositores brasileiros. A geração musical que frutificou da Bossa Nova, nos anos sessenta era chocante. Uma linda síntese de tudo que aconteceu de essencial na música brasileira até então. Foi uma festa. Ouvi a Banda do Chico em São José dos Campos, antes do festival e foi um impacto inesquecível. Ainda morava em Taubaté.
Ouvi Milton Nascimento antes do sucesso, e era deslumbrante. Todos que o conheceram nessa época, já tinham por ele uma admiração que só os grandes mitos podem desfrutar. Vimos e ouvimos Elis, todos os dias. Assisti bem de perto o surgimento do Tropicalismo. Na virada dos anos sessenta para os setenta a música silenciou. Fui fazer jingles publicitários para sobreviver. Acontece que gostei muito do assunto!"

Sua ascenção, contudo, se deu mesmo com a gravação de "Romaria" por Elis Regina. E com a acertada parceria com Almir Sater, que lhe rendeu seus maiores e mais conhecidos sucessos.

Um post inaugural sobre Renato Teixeira, que ainda não havia aparecido no blog. Fortíssimo candidato a um futuro "artista do mês", graças à grandiosidade de sua participação na música brasileira. Pimentinha final: analisando suas composições, um colega (não o identificarei) chegou à conclusão que muitas de suas letras - descontando as composições por encomenda para nossas grandes cantoras interpretes, versam ou dão a entender sobre o amor pelo sexo masculino. Entra na próxima lista de bafões ou não?


Renato de cabelo purpura: dubiedades até nos títulos de suas músicas.




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AMANHECEU, PEGUEI A VIOLA
Renato Teixeira


Amanheceu eu peguei a viola
Botei na sacola e fui viajar
Sou cantador e tudo nesse mundo
Vale prá que eu cante e possa praticar
A minha arte sapateia as cordas
E esse povo gosta de me ouvir cantar

Amanheceu...

Ao meio dia eu tava em Mato Grosso
Do Sul ou do Norte, não sei explicar
Só sei dizer que foi de tardezinha
Eu já tava cantando em Belém do Pará

Amanheceu...

Em Porto Alegre um tal de coronel
Pediu que eu musicasse uns versos que ele fez
Para uma china, que pela poesia
Nem lá de Pequim se vê tanta altivez

Amanheceu...

Parei em Minas prá tocar as cordas
E segui direto para o Ceará
E no caminho fui pensando, é lindo
Essa grande aventura de poder cantar

Amanheceu...

Chegou a noite e me pegou cantando
Num bailão, lá no norte do Paraná
Daí prá frente ninguém mais se espanta
E o resto da noitada eu não posso contar

Anoiteceu e eu voltei prá casa
Que o dia foi longo e o sol quer descansar


TH - Clássico da "country music brasileira"



segunda-feira, 18 de outubro de 2010

AMOR EM QUATRO ATOS: A OBRA DE CHICO BUARQUE NA TELINHA!




Seguindo a tradição iniciada em 2009, a música tomará conta também do mês de Janeiro de 2011 na Rede Globo (Maysa, Dalva de Oliveira & Herivelto Martins estiveram à frente nos anos anteriores). Só que desta vez, ao invés de uma biografia baseada na vida dos artistas eleitos, o foco agora será o conteúdo da obra de um deles. Quem? Nosso artista do mês: Chico Buarque de Hollanda!
A nova microssérie da emissora contará com 4 capítulos e, por ora, o EnTHulho só tem informações concretizadas sobre o primeiro deles, que será baseado na letra de "Mil Perdões"; terá direção de Roberto Talma e Tandê Bassane e texto de Antônia Pellegrino. Carolina Ferraz, Gisele Fróes, Dudu Azevedo e Dalton Vigh estrelarão o episódio.
Lógico que em Janeiro pretendo falar mais desse projeto, mas como o Chico é nosso artista do mês, não poderia deixar em branco. Então, logo abaixo, conheçam as cinco letras das escolhidas para toda a obra televisiva. Quem sabe já não dá pra se ter um aperitivo instigado pelo conteúdo de cada uma e nosso imaginário? ;)





1) MIL PERDÕES
(Uma aula do quanto o perdão pode ser um sentimento (re)buscado. Dueto com Daniela Mercury, no vídeo. Crédito: "Carolzinha124")




Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vidas que andam juntas
Ninguém faz
Te perdôo
Por pedires perdão
Por me amares demais...
Te perdôo
Te perdôo por ligares
Pra todos os lugares
De onde eu vim
Te perdôo
Por ergueres a mão
Por bateres em mim
Te perdôo
Quando anseio pelo instante de sair
E rodar exuberante
E me perder de ti
Te perdôo
Por quereres me ver
Aprendendo a mentir (te mentir, te mentir)
Te perdôo
Por contares minhas horas
Nas minhas demoras por aí
Te perdôo
Te perdôo porque choras
Quando eu choro de rir
Te perdôo
Por te trair



2) VITRINES
(Esta música pertence ao LP "Almanaque do Chico". Curioso ver a letra na contracapa refletida num espelho :) Crédito do vídeo: "Tauil")



Eu te vejo sair por aí
Te avisei que a cidade era um vão
- Dá tua mão
- Olha pra mim
- Não faz assim
- Não vai lá não
Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão, frouxa de rir...
Já te vejo brincando, gostando de ser
Tua sombra a se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar
Na galeria, cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo um salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão...



3) ELA FAZ CINEMA
(Dá pra imaginar uma atriz bem dissimulada interpretando a moça da letra, não? Videoclipe da música, créditos a "leocineasta")



Quando ela chora
Não sei se é dos olhos para fora
Não sei do que ri
Eu não sei se ela agora
Está fora de si
Ou se é o estilo de uma grande dama
Quando me encara e desata os cabelos
Não sei se ela está mesmo aqui
Quando se joga na minha cama
Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é a tal
Sei que ela pode ser mil
Mas não existe outra igual
Quando ela mente
Não sei se ela deveras sente
O que mente para mim
Serei eu meramente
Mais um personagem efêmero
Da sua trama
Quando vestida de preto
Dá-me um beijo seco
Prevejo meu fim
E a cada vez que o perdão
Me clama
Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é demais
Talvez nem me queira bem
Porém faz um bem que ninguém
Me faz
Eu não sei
Se ela sabe o que fez
Quando fez o meu peito
Cantar outra vez
Quando ela jura
Não sei por que Deus ela jura
Que tem coração
e quando o meu coração
Se inflama
Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é assim
Nunca será de ninguém
Porém eu não sei viver sem
E fim.


4) FOLHETIM
(Aqui, Gal Costa dá uma das melhores interpretações para a canção "folhetinesca". Créditos do vídeo a "Cleicianenza")



Se acaso me quiseres
Sou dessas mulheres
Que só dizem sim
Por uma coisa à toa
Uma noitada boa
Um cinema, um botequim
E, se tiveres renda
Aceito uma prenda
Qualquer coisa assim
Como uma pedra falsa
Um sonho de valsa
Ou um corte de cetim
E eu te farei as vontades
Direi meias verdades
Sempre à meia luz
E te farei, vaidoso, supor
Que é o maior e que me possuis
Mas na manhã seguinte
Não conta até vinte
Te afasta de mim
Pois já não vales nada
És página virada
Descartada do meu folhetim

5) CONSTRUÇÃO
(Tá. Quem nunca a teve como exemplo numa aula gramatical? A criativa e lúdica letra de Chico é, talvez, a mais "dramaturgica" das suas, e está inserida no meu álbum predileto do cantor, de mesmo nome. Crédito do vídeo a WolfganGrosauro)



Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado




TH - Ansiosíssimo!

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