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domingo, 25 de junho de 2017

TOPTULHO MUSICAL # 131 - ESPECIAL ALCEU VALENÇA!



Em Março de 2011, quando pus Alceu Valença como Artista Do Mês do EnTHulho Musical, vi muita gente torcer o nariz. Até fiz reiterados posts demonstrando a importância do artista nordestino, mas não vi muito efeito no sentido de mudar a mentalidade das pessoas. Preconceito? Puramente...

Cinco anos depois, publico nas minhas redes sociais a informação de que havia escolhido ele como homenageado do TopTulho, e foi a enquete menos representativa de todas - a que teve menos votos!

Há poucas semanas, Elba Ramalho foi criticada por se expressar contrária à profusão de sertanejos invadindo os já tradicionais festejos juninos nordestinos, e foi linchada - principalmente pelos fãs das duplas sertanejas, que certamente não entendem que estão quebrando uma tradição de décadas. Decididamente, eu fico do lado de Elba, pois só quem foi pras festas sabe quantos artistas que passam anos aguardando essa festiva data para levar alegria para o povo devem estar frustrados. Pra mim, é um grande desrespeito, mas concordo que a organização desses eventos é quem, na verdade, cagou forte. Capitalizaram a cultura - da forma mais vergonhosa possível. Não falo em segregação por estilos musicais, mas esse é um desabafo contra quem se vende descaradamente, prejudicando até as tradições. Mas parece que já ouço, ao fundo: "tradição não enche o bolso de ninguém"...

E o que essa crítica tem a ver com Alceu? Pra mim, o grande Alceu Valença é bastante injustiçado no cenário musical. Ele não tem o reconhecimento merecido, e nem está ao lado dos maiores e mais emblemáticos autores de MPB. O que é uma pena - o nobre cantor e compositor está em plena atividade, mas parece ter o mesmo destino dos demais artistas nordestinos-raiz: o ostracismo midiático. Não se espantem se um show de Alceu for preterido em prol de um desses sertanejos todos que estão no auge, mesmo que seja no próprio Nordeste. 

Desabafo feito, vamos reler o que já falei de Alceu Valença por essas bandas?

"Artistas nordestinos detém uma peculiaridade: despertam sensações bastante controversas!
Brotam orgulho quando mostram sapiência e inteligência em letras "cabeças", imersas em melodias dificilílimas de se partiturar (tentem "Bicho de Sete Cabeças" - conhecedores da teoria musical sabem que é uma das mais complicadas de se desenvolver). E em igual proporção afastam-se da mídia fácil quando se aproximam de enfoques mais folclóricos ou regionalistas. Alia-se a esse afastamento o sotaque: os com acento característico mais marcado na voz (o ó aberto, por exemplo) muitas vezes causa má vontade e menos curiosidade com os mesmos
Alceu inseriu-se em ambos os enfoques, cada um a seu tempo. Soube ser bastante popular quando estourou no início da década de 80, "anunciando" uma tendência que se seguiria. Damesma maneira, nunca deixou de priorizar canções de sua terra e região, preferindo até lançar compilações ao vivo de registros de apresentações lendárias suas do que vender sua obra de qualquer maneiras.
Numa primeira impressão, a escolha do artista do mês de Março aqui no EnTHulho pode soar menos óbvia ou charmosa pra quem já teve Ney Matogrosso, Chico Buarque e Tom Jobim no mesmo posto, mas eu insisto em posicionar Alceu nesse posto: um mestre! Dos que sabem dizer verdades num encantamento e lirismo quase da genialidade de uma literatura de cordel. um nordestino com todas as características típicas, um poeta e cidadão que posiciona Pernambuco merecidamente como uma das mais ricas partes de nosso imenso e cultural Brasil.
A música de Alceu, contudo, não é bairrista. É destinada para quem tem "Coração bobo" e vontade de escutar histórias de amor (seja por cidades que conhece como "Brasília", ou sobre belas donnas da tarde como "La Belle d' Jour". Alceu brota emoções e prova que tem muita, muita história mesmo pra contar!"

Texto publicado em 03 de Março de 2011.

O TopTulho - com a resistência que lhe é característica - opta por homenagear Alceu mais uma vez, e chegou a hora de conferirmos como ficou o resultado da enquete sobre a carreira do mestre, para a alegria de seu São João/ São Pedro!



1) MORENA TROPICANA (Álbum "Cavalo De Pau", de 1982)
2) ANUNCIAÇÃO (Álbum "Anjo Avesso", de 1983)
3) COMO DOIS ANIMAIS (Álbum "Cavalo De Pau", de 1982)
4) LA BELLE D' JOUR (Álbum "Sete Desejos", de 1992)
5) CORAÇÃO BOBO (Álbum "Coração Bobo", de 1980)
6) SETE DESEJOS (Álbum "Sete Desejos", de 1992)
7) PELAS RUAS QUE ANDEI (Álbum "O Grande Encontro", de 1996)
8) NA PRIMEIRA MANHà(Álbum "Coração Bobo", de 1980)
9) SOLIDÃO (Álbum "Mágico", de 1984)
10) CAVALO DE PAU (Álbum "Cavalo De Pau", de 1982)
11) BICHO MALUCO BELEZA (Álbum "Sete Desejos", de 1992)
12) GIRASSOL (Álbum "Leque Moleque", de 1987)
13) TOMARA (Álbum "Sete Desejos", de 1992)
14) PAIXÃO (Álbum "Maracatus, Batuques e Ladeiras", de 1994)
15) FLOR DE TANGERINA (Álbum "De Janeiro a Janeiro", de 2002)
16) TE AMO BRASÍLIA (Álbum "Andar Andar", de 1990)
17) ROMANCE DA BELA INÊS (Álbum "Leque Moleque", de 1987)
18) CÓPIAS MAL FEITAS (Trilha 01 da Novela "Roque Santeiro", de 1985)
19) BOBO DA CORTE (CASACA DE COURO) (Álbuns "Mágico", de 1984 e "Leque Moleque", de 1987) 
20) ANJO DE FOGO (Álbum "Espelho Cristialino", de 1977)

TAMBÉM FORAM VOTADAS:

21) PERFÍDIA
22) DIABO LOURO
23) DANÇA DAS BORBOLETAS
24) MARACAJÁ
25) VAMPIM
26) TESOURA DO DESEJO
27) A ROSA IMPÚRPURA DO CAIRO
28) PÉTALAS
29) VOU DANADO PRA CATENDE
30) CIRANDA DA ROSA VERMELHA

MÚSICAS RELEVANTES NÃO VOTADAS

A MENINA DOS MEUS OLHOS
AGALOPADO
AMOR COVARDE
ANJO AVESSO
BALANÇO DE REDE
BEIRA-MAR
CANA CAIANA
CAVALO DOIDO
CHEIRO DA SAUDADE
CHUTANDO PEDRAS
CINCO SENTIDOS
CINTURA FINA
DESCIDA DA LADEIRA
DIA BRANCO
DOLLY DOLLY
ESCORREGANDO NO PÍFANO
ESPELHO CRISTALINO
ESTAÇÃO DA LUZ
GUERREIRO
JUNHO
MARACATU
MARIM DOS CAETÉS
NO ROMPER DA AURORA
O P DA PAIXÃO
PERDEU O CIO
PONTOS CARDEAIS
PORTO DA SAUDADE
PRA CLAREAR
QUADRO NEGRO
QUE GRILO DÁ (ROCK DE REPENTE)
RIMA COM RIMA
ROUGE CARMIM
RUBI
SAUDADE DE PERNAMBUCO
SINO DE OURO
SOLIBAR
QUANDO EU OLHO PARA O MAR
TROVOADA
VEM MORENA


Depois desse passeio pela discografia do mestre, chegou a hora de apresentarmos o primeiro lugar, a maravilhosa "TROPICANA"!

MORENA TROPICANA
Alceu Valença/Vicente Barreto

Da manga rosa quero o gosto e o sumo
Melão maduro sapoti juá
Jabuticaba teu olhar noturno
Beijo travoso de umbu-cajá
Pela macia ai carne de caju
Saliva doce doce mel mel de uruçu
Linda morena fruta de vez temporana
Caldo de cana-caiana
Vem te desfrutar

Linda morena fruta de vez temporana
Caldo de cana-caiana
Vou me desfrutar

Morena tropicana
Eu quero teu sabor





Valeu, Alceu! Agora chegou a hora do...



Na parada contemporânea, temos duas estreias: a versão do Skank para "A Hard Day's Night", clássico dos Beatles e que é tema de abertura da novela "Pega Pega" e a música "Filhos Do Arco-Íris", escrita por Nizan Guanais e interpretadas por vários artistas, tendo Preta Gil e Pablo Vittar como porta-vozes (além de Rogério Flausino do Jotaquest, Sandy, Fafá De Belém, Luiza Possi, Carlinhos Brown, Di Ferreiro, Paulo Miklos e outros). A música é claramente favorável à causa LGBT e a favor da identidade de gênero, e fico feliz em ver que já está tocando bem em algumas rádios importantes, como a Jovem Pan, por exemplo. 

As duas estreias entram nos lugares de Baiana System e Urbana Legion, que infelizmente nos deixaram. E a dupla Cazuza e Ney Matogrosso segue firme na primeira posição!

A grande novidade do TopTulho é que você pode votar para que músicas entrem na parada! Na comunidade do EnTHulho do Facebook há uma enquete com algumas músicas de MPB (lançamentos) para que vc vote para entrar aqui!

Essa semana, tivemos um lamentável incidente com Mallu Magalhães no programa "Encontro Com Fátima Bernardes". A moça - a quem admiro - pareceu não entender as críticas que foram feitas no programa ao racismo contido vídeo de "Você Não Presta" (que está em aqui no TopTulho) e, na hora de sua apresentação, proferiu "essa vai para alguns preconceituosos que acham que branco não sabe cantar samba". Acho que dona Pitty deve entrar em ação novamente e dar umas boas lições humanistas pra moça. Ela fez isso com Anitta (no caso do machismo dela, lembram?), e parece que surtiu algum efeito!

O Filipe Catto já está há oito semanas conosco com a música "Do Fundo Do Coração", que hoje se manteve na sexta posição. Ã canção é de 2015, mas o clipe só foi lançado agora, em 2017. Atualmente, o moço está na estrada com a turnê do disco Tomada (2015). Então ele é o destaque do dia aqui conosco! A gente confere a parada e depois curte o som do cara!

TOPTULHO MUSICAL - EDIÇÃO # 131 - 25/06/17

1) CAZUZA & NEY MATOGROSSO - Dia Dos Namorados (=) (4 Semanas) 
2) TIÊ - Mexeu Comigo (=) (9 Semanas)   
3) SANDY - Respirar (+1) (8 Semanas) 
4) ANITTA - Paradinha (+6) (2 Semanas)
5) TIAGO IORC - Tempo Perdido (-2) (10 Semanas) 
6) FILIPE CATTO - Do Fundo Do Meu Coração (=) (8 Semanas) 
7) BRUNA CARAM - Par (-2) (9 Semanas)   
8) ANA CAÑAS - Respeita (+1) (6 Semanas) 
9) MALLU MAGALHÃES - Você Não Presta (+2) (5 Semanas) 
10) MANU GAVASSI - Hipnose (+2) (7 Semanas) 
11) JOHNNY HOOKER - Como Vai Você? (+2) (6 Semanas)
12) ROBERTA SÁ - Pra Você (-4) (12 Semanas)  
13) ELZA SOARES - Luz Vermelha (+2) (3 Semanas)
14) ROBERTO CARLOS - Sereia (-7) (12 Semanas) 
15) LINEKER - Cuidado (+1) (4 Semanas)       
16) PRETA GIL & VÁRIOS - Filhos Do Arco-Íris (ESTREIA)
17) SILVA - Eu Sei (-3) (12 Semanas)    
18) ANA VILELA - Trem Bala (=) (25 Semanas) 
19) OSWALDO MONTENEGRO & LUIZA POSSI - A Lista (+1) (4 Semanas)
20) SKANK - A Hard Day's Night (ESTREIA)

Saem:

BAIANA SYSTEM - Invisível (10 Semanas. Maior posição: 07)       
URBANA LEGION - Apóstolo São João (12 Semanas. Maior posição: 03) 




DO FUNDO DO CORAÇÃO
Filipe Catto
Participação Especial: Dzi Croquettes

A noite é princesa caída por mim
No lago do peito, secreta solidão
Eu lembro lugares, pessoas que frequentei
Cenas que vi, filmes que já filmei
Apareça qualquer hora agora
E mora no meu coração
Apareça qualquer hora agora
E mora no meu coração

Eu sou marinheiro, navego com a lua
Meu mar é a rua, amar só você
No movimento exato do olho do lince
O raio de laser, na selva do olhar
Apareça qualquer hora agora
E mora no meu coração
Apareça qualquer hora agora
E mora no meu coração

Eu canto donas de castelo
Não sou louco, louco não
Eu brinco de polichinelo
Como o bobo coração
Mil e um palácios de areia
Noites de sereias
Eu ouço o som de uma nota só

A noite é princesa caída por mim
No lago do peito, secreta solidão
Eu lembro lugares, pessoas que frequentei
Cenas que vi, filmes que já filmei
Apareça qualquer hora agora
E mora no meu coração
Apareça qualquer hora agora
E mora no meu coração.



TH - Até a segunda metade do ano!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

FESTIVAL DE GRANDES ENCONTROS!

Alceu, Zé, a prima Elba e Geraldo: reuniões históricas!


Em 1996, numa época em que a música popular brasileira batalhava contra o estrangeirismo exacerbado e procurava manter-se no mapa musical do país, um ousado projeto estava prestes a se concretizar. Os primos paraibanos Zé Ramalho e Elba Ramalho uniram-se aos compadres pernambucanos Alceu Valença e Geraldo Azevedo - todos, detalhe, com uma afinidade musical muito forte entre si. Desta reunião nasceu o arrojadíssimo disco "O Grande Encontro", que nada mais é do que a junção de grandes sucessos de cada um, além de músicas que adoravam em comum acordo, num entrosamento impressionante. A junção de vozes e violões rendeu um show conceituadíssimo no Canecão, e o registro vendeu nada menos do que 1 milhão de cópias e se firmou como repertório essencial de uma época! Clássicos como Sabiá, Dia branco, O amanhã é distante, Admirável gado novo, O trem das sete (Raul Seixas), Chão de giz (Elba eternizou e fez dessa um de seus maiores hits até hoje) , Veja, Chorando e cantando, Banho de cheiro e Frevo Mulher fizeram parte do delicioso repertório.

O sucesso surpreendeu todos os envolvidos - sejam os próprios protagonistas, como também os produtores e o público. Como é tendência na música brasileira, tudo o que faz sucesso requer uma continuação - o gostinho de quero mais aliado à vontade de faturar aqui também se fez presente e decidiram lançar uma continuação. Alceu Valença, entretanto, fazendo jus a seu ego temperamental, pulou fora do barco. Os três seguiram com um disco que dessa vez foi gravado em estúdio. O Grande Encontro II (1997) fez mediano sucesso e contou com hits como Disparada, O princípio do prazer, Eternas ondas, Bicho de sete cabeças, Canta coração, Canção da despedida e Ai que saudade d´oce. Mas Alceu inegavelmente fez falta e o fato de não ser um registro "ao vivo" deixou um semblante bem menos pessoal.

Já o terceiro e último encontro foi lançado no ano 2000, novamente com Elba, Zé e Geraldo apenas. Um belo e correto disco, sem os clássicos eternizados no anteriores, mas pelo menos valeu por ser novamente um registro ao vivo. O inusitado foi fazer o encontro do trio se estender a novos convidados, como Lenine, Morais Moreira e Belchior. O repertório privilegiava mais a carreira de Zé e Geraldo, porém não teve hits da de Elba, que aceitou e venceu o desafio de impostar sua voz e composições ate então inéditas para ela! (Destaque, na opinião de TH, pra sua parceria com Lenine, em "Lá e Cá"). Os arranjos tem mais nuances que os discos anteriores e realçam com firmeza os vocais dos nordestinos, fechando sim com chave de ouro a trilogia clássica.

A música brasileira é tão vasta que se desdobra em vários segmentos. E cada um com seus mais poderosos representantes. Falar de música nordestina sem citar este excelente capítulo retratado nesses três discos é classificá-la de maneira rasa e insubsistente. Elba Ramalho, nossa artista do mês, em meio a sua vasta discografia, não pode nunca deixar de lembrar o quão foi feliz por ter sido a poderosa voz feminina em meio a tantos "machos cabras da peste" gênios e bastante musicais como seus companheiros desta série.

Entrou pra história de nossa música!


[Abaixo, um dos hits do terceiro volume. O meu preferido, contudo, é o primeiro!]


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FRISSON
Tunai. Interpretação: Elba Ramalho.

Meu coração pulou,
Você chegou, me deixou assim
Com os pés fora do chão
Pensei: que bom, parece, enfim acordei
Pra renovar meu ser faltava mesmo chegar você
Assim, sem me avisar, prá acelerar um coração
Que já bate pouco de tanto procurar por outro
Anda cansado, mas quando você está do lado
Fica louco de satisfação, solidão nunca mais
Você caiu do céu, um anjo lindo que apareceu
Com olhos de cristal me enfeitiçou, eu nunca vi nada igual
De repente você surgiu na minha frente
Luz cintilante, estrela em forma de gente
Invasora do planeta amor, você me conquistou
Me olha, me toca, me faz sentir
que é hora agora da gente ir...


TH - Quisera "encontrá-los" juntos, alguma vez!





quarta-feira, 1 de junho de 2011

ARTISTA DO MÊS: ELBA RAMALHO!


E Junho é mês de alegria!
Alegria contagiante da esfuziante e esganiçada cantora Elba Ramalho, a artista do mês!
Quando começou a fazer sucesso, nos primórdios da década de 80, Elba era uma figura atípica e curiosa. A voz estridente e com sotaque carregadíssimo a fez despertar bastante atenção em excessivas apresentações midiáticas (dentre as quais, as participações nos programas de auditório, tipo o Chacrinha). Tornou-se fácil fácil figura única no mundo do espetáculo. Não por acaso, em 1983 foi considerada a melhor cantora do Brasil, em publicação da Revista Veja. E daí não parou: traçou uma bela e sólida carreira, muito além de cordéis e ritmos puramente nordestinos (baião, forró, maracatu, cirandas...), pois, destacando-a deste panorama, Elba passou também a flertar com a pura MPB, trazendo para o cancioneiro brasileiro interpretações soberbas para grandes clássicos de cultuados compositores.
Os jornalistas e a imprensa em geral costumam atribuir funções variadas no cenário da MPB. A de Elba, inevitavelmente, lhe faz carregar em si o título de "rainha nordestina", afinal, surgiu para ser devota de Luiz Gonzaga, Nando Cordel, Dominguinhos e muitos outros mestres, assim como também pode ser considerada contemporânea da mesma safra de Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Zé Ramalho e muitos outros. Não por acaso, criou, ao lado dos últimos citados, uma série de encontros musicais que marcou a música popular brasileira, justamente os chamados "Grande Encontros", na década de 90. A música nordestina não seria a mesma sem a delicadeza e presença potencial de Elba Ramalho para representar seus inúmeros clássicos!
P.s.: Cabe aqui um comentário adicional: vocês já contemplaram um show de Elba em plenos festejos juninos em Caruaru ou Campina Grande? Estariam diante de uma deusa reverenciada, pois a plateia urge em sinergia com a esfuziante potência de espetáculo da cantora. Um fenômeno!
Não desmerecendo grandes figuras femininas do Nordeste como Carmélia Alves, Marinês, Lia de Itamaracá, Rita Ribeiro e a mulherada fenomenal da Bahia, mas a vez agora no EnTHulho Musical é da super Elba Ramalho!




Cabelo, cabeleira, cabeluda: painel com diversos momentos de Elba Ramalho!




[BIOGRAFIA ATÉ 2005]

Elba nasceu na Paraíba, na zona rural da localidade de Conceição, mais conhecido como Conceição do Vale do Piancó. Em 1962, a família se mudou para a cidade de Campina Grande, também na Paraíba. O pai se tornou proprietário do cinema local. Filha de músico, despertou o interesse pela mesma ainda na adolescência. Herdou do pai a musicalidade em ritmos eminentemente nordestinos como baião, maracatu, xote, frevo, caboclinhos e forrós. Elba fez a primeira apresentação nos palcos, juntamente com o coral da Fundação Artística e Cultural Manuel Bandeira. Em 1968, enquanto cursava a faculdade de Economia e Sociologia na Universidade Federal da Paraíba, formou o conjunto As Brasas, no qual atuou como baterista, que posteriormente se transformou em grupo teatral. Contudo, Elba não deixou de cantar, e se apresentou em diversos festivais pelo Nordeste. Em 1974, Elba mudou-se para o sudeste do país, a pedido de Roberto Santana, produtor de Chico Buarque e Caetano Veloso, chegando ao Rio de Janeiro com o grupo Quinteto Violado, para apresentar como crooner durante uma temporada na cidade. No mesmo ano, participou da peça Viva o Cordão Encarnado, em parceria com o grupo teatral Chegança, de Luís Mendonça, sendo aclamada pela crítica por conta da hiperatividade no palco, o que se tornaria a principal característica. Negou-se a voltar para o Nordeste, onde abandonou o curso universitário e, na capital fluminense, se estabeleceu como atriz teatral, sempre interpretando papéis ligados à música. Sem qualquer apoio ou recurso financeiro, passou a frequentar o Baixo Leblon, onde conheceu artistas como Alceu Valença e Carlos Vereza. Em 1977, atuou no filme Morte e Vida Severina, inspirado na obra homônima do autor pernambucano João Cabral de Melo Neto. No ano seguinte pertenceu ao elenco da peça de Chico Buarque, Ópera do Malandro, dirigida por Luís Antônio Martinês Correia, na qual interpretou a prostituta Lúcia. Ainda enquanto atriz, foi vencedora de um prêmio pela interpretação da canção O meu amor, com a atriz Marieta Severo.

A peça Ópera do Malandro foi lançada numa época em que a poética de Chico Buarque estava "afiadíssima". Elba Ramalho foi presença de grande destaque, o que impulsionou a carreira de atriz e cantora. Diante disso, Chico Buarque inseriu uma gravação O Meu Amor, interpretada por Elba e pela então esposa Marieta Severo, para o disco auto-intitulado, lançado em 1978, e também no álbum duplo da peça, lançado no ano seguinte. A canção foi um grande sucesso, e por isso mesmo, mereceu também um dueto das cantoras Alcione e Maria Bethânia no antológico álbum Álibi, da última, lançado naquele mesmo ano de 1978. Elba investiu na carreira de cantora e gravou o primeiro álbum, lançado pela extinta CBS (atualmente Sony Music) - numa época em que a gravadora investiu muito em artistas nordestinos -, em 1979, intitulado Ave de Prata, com destaque para a faixa-título e as canções Canta coração e Não sonho mais, esta última composta por Chico Buarque para a trilha sonora do filme A República dos Assassinos. O trabalho contou com diversas participações especiais de músicos e compositores consagrados, casos de Dominguinhos, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Novelli, Vinícius Cantuária, Sivuca, Robertinho de Recife, Nivaldo Ornelas e Jackson do Pandeiro - parcerias que perduram até os dias atuais. A partir de então, o sucesso apareceu de forma gradual, embora ela própria considere que o teatro esteja presente em todos os espetáculos, sendo o grande responsável pela força cênica peculiar. As apresentações também obtiveram relevante sucesso em teatros internacionais, como o Olympia de Paris, o Blue Note de Nova Iorque, o Brixton Academy, de Londres e o Festival de Montreux, na Suíça. O repertório se manteve eclético durante todo esse tempo, trazendo canções típicas do nordeste brasileiro, baladas românticas, rocks, sambas e até o blues norte-americano.
Em 1980 gravou o segundo LP, Capim do vale, que trouxe canções de compositores nordestinos antigos e contemporâneos, apresentando um repertório regional, com destaque para a faixa-título e as canções Banquete dos signos, Porto da saudade, Caldeirão dos mitos e Veja (Margarida), e fez a primeira turnê internacional, na África. No ano seguinte, lançou o disco Elba, o último para a gravadora CBS, com arranjos de Miguel Cidras e José Américo Bastos, que não obteve maior repercussão; destaque para as canções Temporal e Cajuína, e duas faixas somente de voz e violão - O pedido e Eu queria.
Em 1982 transferiu-se para a extinta gravadora Ariola/Barclay (atualmente Universal Music), marcando o início da fase de maior popularidade na carreira, disputando a parada de sucessos daquele ano com outras cantoras como Gal Costa, Simone, Rita Lee, Beth Carvalho, Baby Consuelo, Amelinha e Clara Nunes. O trabalho que marca a estreia nessa gravadora - Alegria, produzido por Aramis Barros com direção artística de Mazzola -, vendeu mais de 300 mil cópias, lhe rendendo o primeiro disco de ouro, emplacando nas paradas de sucesso os forrós Bate coração, Amor com café (ambos de Cecéu) e No som da sanfona, de autoria de Jackson do Pandeiro, que também tocou pandeiro na faixa e viria a falecer em 10 de julho daquele ano; também se apresentou na Suíça, Portugal, Israel e ainda participou da série Grandes Nomes (TV Globo), ao lado de Alceu Valença.


Sobre a escolha de Bate coração, lançada por Marinês no ano anterior, Elba comenta: "Um primo meu, médico, o Ari Viana, pesquisava muito as músicas da Marinês, que era meu ídolo, e me mandava para eu ouvir. Numa dessas, esbarrei com o Bate coração e resolvi cantar.
" O álbum também trouxe arranjos do maestro José Américo Bastos e canções de Lula Queiroga (Essa alegria - Caboclinhos), Alceu Valença (Chego já), Vital Farias (Sete cantigas para voar, com arranjo e violão do próprio) e Geraldo Azevedo (Menina do lido, gravada em dueto com o autor). A partir deste álbum, que lhe garantiu seus primeiros discos de ouro e platina, o sotaque estava menos carregado, ao contrário dos três primeiros discos. Em seguida, houve o espetáculo homônimo, o primeiro que foi muito elogiado pela imprensa, pois rompeu com a estética do rústico e do sombrio que norteava as apresentações de muitos de seus conterrâneos na música brasileira; neste, já havia um cenário de figurinos exuberantes, combinações de luzes e cores e o clima festivo das ruas nordestinas. Sobre o espetáculo, Elba declarou: "mostro meu lado teatral desde o meu primeiro show, Ave de prata, mas o Alegria foi a afirmação disso. Foi meu primeiro espetáculo muito elogiado pela imprensa." Trata-se também de um show com efeitos teatrais, com Elba interpretando personagens que havia feito anos antes em peças de teatro, como Mateus e Catarina. No repertório deste, destaque para a canção Deixa escorrer, de Caetano Veloso sobre poema de Mayawowski, que a censura vetara a inclusão no LP. Em 1983 lança o elogiadíssimo álbum Coração Brasileiro, que contou com a produção de Mazzola e arranjos de Lincoln Olivetti (Banho de cheiro e Vida e carnaval), Luiz Avellar (Toque de fole e Batida de trem), César Camargo Mariano (Ave cigana, Canção da despedida e A volta dos trovões), Francis Hime (Se eu fosse o teu patrão), o grupo A Cor do Som (Chororô), Severo (Roendo unha) e Zé Américo (Ai que saudade d'ocê). Os maiores êxitos do repertório foram as canções: Banho de cheiro (frevo de Carlos Fernando e faixa de abertura do álbum), o xaxado Toque de fole (Bastinho Calixto e Ana Paula) - primeira faixa a estourar nas rádios -, a toada Canção da despedida (parceria bissexta de Geraldo Azevedo e Geraldo Vandré, censurada durante a ditadura militar) e o xote Ai que saudade d'ocê (Vital Farias). O disco contou com as participações especiais de Chico Buarque, os grupos Céu da Boca e Roupa Nova, e o guitarrista Robertinho de Recife nas faixas Se eu fosse o teu patrão - composta por Chico para a peça A Ópera do Malandro -, A volta dos trovões (Bráulio Tavares e Fuba) e Vida e carnaval (Moraes Moreira e Aroldo), respectivamente. Na faixa Toque de fole inclusive, contou com a participação especial dos sanfoneiros Sivuca, Severo e Zé Américo.

A faixa-título, de autoria do mineiro Celso Adolfo, aparecia apenas como uma vinheta de 15 segundos; apesar de constar no encarte com a letra completa, somente os primeiros versos eram cantados, à capela: No meu coração brasileiro / Plantei um terreiro / Colhi um caminho / Armei arapuca / Fui pra tocaia / Fui guerrear.
O trabalho consagrou definitivamente a cantora e conquistou discos de ouro e platina, e originou o espetáculo homônimo aclamado pela crítica especializada, realizado na casa carioca de espetáculos Canecão, bateu pela primeira vez os recordes de público ali registrados nos shows de Roberto Carlos; foram 97 mil pessoas em dez semanas, traduzidas em 44 apresentações, com ingressos esgotados duas semanas antes do término da temporada. Elba foi capa da Veja na edição de 30 de novembro, sendo considerada pela revista a maior estrela da música brasileira em 1983, cuja manchete de capa era O brilho da estrela, que dizia: Depois do sucesso no Canecão e da semana de seu especial na TV Globo, Elba Ramalho se reafirma como figura única no mundo do espetáculo. A cantora foi também tema do especial de fim de ano da Rede Globo, exibido na sexta-feira, 2 de dezembro de 1983. Em relação às fotos teatrais da contracapa, foi uma ideia do diretor Naum Alves de Souza, de rebobinar personagens que Elba havia interpretado em espetáculos ao longo da carreira; o anjinho e o leque da capa, presentes da amiga Marieta Severo, que por sinal lhe apresentou ao diretor. No ano seguinte, a Polygram alemã decidiu que seria o primeiro trabalho solo de um artista brasileiro a ser lançado internacionalmente em CD - três anos antes de o formato começar a ser comercializado no Brasil com artistas nacionais, por meio da série Personalidade. Prosseguiu com o álbum Do jeito que a gente gosta (1984), produzido por Mazzola e lançado num momento em que a cantora estava no auge do sucesso. O repertório deste, escolhido a quatro mãos com o produtor, apresentou grande versatilidade de ritmos, com destaque para dois forrós nordestinos, puxados a sanfona e zabumba: a faixa-título (Severo e Jaguar) e Forró do poeirão (Cecéu); da cultura pernambucana, dois frevos - Moreno de ouro (Carlos Fernando e Geraldo Amaral) e Energia (Lula Queiroga) - e um maracatu (Toque de amor de João Lira e José Rocha); baladas românticas, como Calmaria (do maestro Zé Américo, com Salgado Maranhão) e Amor eterno (de Tadeu Mathias e Ana Amélia, inspirada em um soneto de Shakespeare) - que integrou a trilha sonora da novela global Livre para Voar, de Walther Negrão -, uma toada mineira, a faixa de abertura Azedo e mascavo (Celso Adolfo) e, encerrando o disco em tom de protesto, a provocativa Nordeste Independente (Imagine o Brasil) (Bráulio Tavares e Ivanildo Vilanova), gravada ao vivo no espetáculo inspirado no trabalho anterior, e um dos momentos de maior sucesso do espetáculo, mas que não havia entrado no disco Coração brasileiro.

Esta canção teve a execução pública proibida à época de lançamento do disco, e o LP foi vendido com um lacre vermelho, escrito que era proibida a radiodifusão dessa música. Elba comenta: "Foi um fato que chamou a atenção, pois eu estava no auge e aquilo causou muita notícia e curiosidade do público". Os arranjos ficaram a cargo de José Américo Bastos, César Camargo Mariano (Azedo e mascavo e Amor eterno) e Lincoln Olivetti (nos frevos).
O trabalho seguinte, Fogo na mistura (1985) - produzido por Mazzola e o último da fase de maior popularidade da carreira - nasceu num período de efervescência política no Brasil, graças à campanha pelas Diretas Já, processo iniciado no ano anterior, e que atingiu o clímax quando Tancredo Neves foi eleito para presidente no Colégio Eleitoral. Elba se engajou nessa campanha e participou de diversos atos em prol da liberdade política e artística. Isto se reflete em letras politizadas como a da faixa-título e o frevo Pátria amada, a faixa de encerramento, que integrou a trilha sonora do filme homônimo de Tizuka Yamazaki. Sobre essa época, Elba revelou em entrevista a Rodrigo Faour: Tive uma vivência política quando era universitária. Fui presidente do diretório de estudantes, depois vivi bem de perto o final da ditadura, vi 'amigos sumindo assim', como dizem os versos de Gilberto Gil. Em meu trabalho, independente de ideologia - nunca gostei nem de comunistas -, sempre tive uma preocupação em tocar na questão social. Acho importante. Por isso, também participei da campanha das eleições diretas e cheguei a ser amiga de Tancredo Neves. Depois de uma turnê a Cuba, e influenciada por cantores como Silvio Rodrigues e Pablo Milanés - chegou a fazer a apresentação de um disco que este último lançou naquele mesmo ano em solo brasileiro -, três faixas deste álbum foram gravadas em Miami com arranjos e execução de músicos cubanos residentes ali: a faixa-título, de Tunai e Sérgio Natureza - que aparece na abertura do LP -, mas a temática caribenha apareceu com maior intensidade nas faixas Como se fosse a primavera (Canción) (versão de Chico Buarque para tema de Pablo Milanés com Batista Nicolas Guillen, gravada por Chico no ano anterior) e No caminho de Cuba (Jaime Alem, atualmente maestro da cantora Maria Bethânia, mas que à época pertencia à banda de Elba), se revelando também nas temáticas e mesmo no gênero rítmico, com uma acentuada latinidade; ao longo da carreira, Elba voltaria várias vezes à estética musical caribenha - em números dos discos seguintes, como Remexer, Elba e Popular brasileira, e principalmente em 1993 quando gravou o álbum Devora-me totalmente voltado para esta sonoridade. Além disso, o álbum trouxe um forró (Mexe mexe funga funga, de Severo e Jaguar) - primeira faixa de trabalho -, samba de pegada pop (Anjo do prazer, de Tadeu Mathias e Jaguar) e fusões rítmicas (Sambaiãozar, de Pinto do Acordeon). Mas também trouxe o maior sucesso da carreira até hoje, a toada romântica De volta pro aconchego (de Dominguinhos e Nando Cordel). A música foi popularizada devido à sua inclusão na trilha da novela global Roque Santeiro de Dias Gomes - censurada há dez anos e somente liberada em 1985, trazendo no elenco atores veteranos e novatos, contando com uma audiência maciça, e poucas vezes vista na televisão brasileira. A música chegou às mãos da cantora no ritmo do baião; foi dela a ideia de romantizar o tema, ganhando arranjo de Dori Caymmi. Curiosidade: o cantor e compositor Caetano Veloso homenageou essa interpretação da cantora na música Pra ninguém, gravada por ele em 1997 no álbum Livro, em que homenageia e cita suas interpretações preferidas; quando chega na vez de Elba, é dito: Elba cantando De volta pro aconchego. Em 1991 lançou o álbum Felicidade urgente, que contou com a produção de Nelson Motta, arranjos do maestro e pianista Eduardo Souto Neto e as participações especiais de Lulu Santos na faixa Vida, Cláudio Zoli na faixa-título, Djavan em Ventos do norte, Sandra de Sá na música Maré dendê e Oswaldinho do Acordeon na faixa de encerramento - a célebre La vie en rose, gravada originalmente pela cantora francesa Edith Piaf; o trabalho misturou canções inéditas e regravações (Vida, Morena de Angola, Pisa na fulô, É d'Oxum e La vie en rose); no ano seguinte foi a vez de Encanto, produzido pela própria cantora, cujo repertório mostrou um bom equilíbrio entre forrós e canções românticas e contou com a participação especial de Margareth Menezes na faixa Cidadão. Em 1993 o disco Devora-me simulou uma incursão pela sonoridade latina, tendo sido gravado em Porto Rico e produzido por Glenn Monroig; em entrevistas da época, Elba declarou que apesar de ter nascido em solo brasileiro, tinha a intenção de ampliar sua música para outros públicos na América do Sul. O maior sucesso do álbum foi a faixa de encerramento Coração da gente, tema de abertura da novela da Rede Globo Tropicaliente, de Walther Negrão. A versão internacional deste trabalho trouxe uma faixa-bônus - no caso, a referida faixa Coração da gente vertida para o espanhol, mas trouxe também versões de canções caribenhas (Cora coração, Devora-me outra vez, Força interior e Desesperada).

Anteriormente a esse trabalho, no mesmo ano foi lançada a coletânea O Grande Forró de Elba Ramalho, uma seleção de canções pertencentes a discos anteriores da cantora, com duas faixas inéditas: Chegadinho e Eu quero meu amor - esta última também fez parte do repertório de Devora-me e da trilha sonora da novela global Renascer, de Benedito Ruy Barbosa.
O trabalho que marca a saída da gravadora Polygram é Paisagem (1995), cujo maior destaque foi a regravação de Paisagem na janela, que integrou a trilha sonora do remake da novela Irmãos Coragem. Desde então é tida como uma das principais intérpretes da música brasileira, com expressivas vendagens, graças à presença de palco e voz inconfundível. Em 1996, lança o elogiado e bem-sucedido CD Leão do Norte, que marcou a estreia na gravadora BMG e vendeu mais de 300 mil cópias, exaltando a cultura nordestina e pernambucana (com a faixa-título de Lenine e Paulo César Pinheiro). O espetáculo homônimo foi dirigido por Jorge Fernando e obteve relevante sucesso no Brasil inteiro, arrematando o prêmio de Melhor show do ano, pela Associação de Críticos de Arte de São Paulo e também originou um VHS contendo os melhores momentos do espetáculo. Naquele mesmo ano, excursiona com o espetáculo O grande encontro, juntamente com Alceu Valença, Zé Ramalho e Geraldo Azevedo. O primeiro disco da trilogia vende mais de um milhão de cópias, trazendo clássicos da MPB e da música nordestina. Em 1997 chegou às lojas o disco Baioque, composto basicamente de regravações de músicas urbanas de autores nordestinos, como Raul Seixas (S. O. S.), Belchior (Paralelas), Ednardo (Pavão misterioso), Zé Ramalho (Vila do sossego), Caetano Veloso (Os argonautas), Gilberto Gil (Vamos fugir), Lenine (Relampiano), Alceu Valença (Ciranda da rosa vermelha), dentre outros; assim como o trabalho anterior, este também foi produzido pelo músicos Robertinho do Recife que também foi responsável por alguns arranjos e regência. O espetáculo bisou a parceria com Jorge Fernando e o sucesso do espetáculo baseado no disco anterior e a reedição deste CD trouxe a faixa-bônus Paris, que não constava da versão original. Graças ao sucesso do projeto O grande encontro, foi lançado um segundo volume do álbum, mas desta vez só não contou com a participação de Alceu Valença, além de excursionar pelo Brasil inteiro; o repertório deste trouxe sucessos dos três artistas.

Em 1998 lança o CD Flor da Paraíba, o último da trilogia produzida por Robertinho de Recife, trazendo algumas regravações e canções inéditas de compositores nordestinos, priorizando canções no estilo do forró. O título do álbum é inspirado em uma dedicatória feita, há muitos anos, pelo cantor e compositor Caetano Veloso, quando a cantora acabara de chegar ao Rio de Janeiro para despontar no meio musical.
Em 2001, a inclusão da balada "Entre o Céu e o Mar" na trilha da novela Porto dos Milagres ajudou a promover o disco Cirandeira, ao qual se seguiu um tributo a Luiz Gonzaga no disco Elba Canta Luiz (2002) – cujo show de lançamento renderia o CD Elba ao Vivo (2003). Em 2004, uma turnê nacional com Dominguinhos seria o ponto de partida do disco que saiu no início de 2005, gravado em estúdio com inéditas ("Rio de Sonho", "Forrozinho Bom", "Chama") e clássicos de autoria de Domiguinhos, casos de "Eu Só Quero Um Xodó" e "De Volta pro Aconchego", este um sucesso eternizado em 1985 pela própria Elba, a voz agreste que traduz a riqueza musical nordestina para o Brasil.


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Biografia inspirada na do site Vagalume.com. Agradecimentos!
Ps1.: O disco que constará o cabeçalho do EnTHulho Musical será o ótimo "Leão do Norte", de 1996.
P.s2.: Não é pra me gabar não mas meu pai já improvisou uma canjinha com Elba, na década de 90, em Mossoró, RN. ;)

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ABAIXO, DOIS CURIOSÍSSIMOS VÍDEOS: NO PRIMEIRO, A PARTICIPAÇÃO DE ELBA RAMALHO, JUNTO A JOSÉ DUMONT, NO ESPECIAL DA GLOBO "MORTE E VIDA SEVERINA". NO SEGUNDO, ELBA RAMALHO E A ATRIZ CLÁUDIA OHANA "SE ENFRENTAM", CANTANDO "O MEU AMOR", EM MEMORÁVEL CENA DO FILME "A ÓPERA DO MALANDRO".







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TREM DAS ILUSÕES
Elba Ramalho e Alceu Valença

Ah, se meu desejo voasse
Como ave, como pássaro
Lhe caçasse em toda parte
Provocasse sua compaixão

É tão pouco, muito louco
Ficar ouvindo sua voz pelo telefone
A canção que nós cantamos como trilha
Nessa noite de interrogação

Ah, se meu desejo voasse
Como ave, como pássaro
Lhe caçasse em toda parte
Provocasse sua compaixão

É tão pouco, é muito louco
Ser flor e pedra em seu caminho
Sofrer, gemer, quase em silêncio
Morder seu nome no lenço
Ver nossa história por um fio

É tão vazio

Vai ver que esse trem que você viaja
Não tem janela não
Não tem casa na colina

Não tem pôr-do-sol lá em cima
É você que está cego e não me vê viajando
Na mais cruel ilusão

Ah, ah, ah, ah, ah, ah
Ah, ah,ah, ah, ah,

Ah, se meu desejo voasse
Como ave, como pássaro
Lhe caçasse em toda parte
Provocasse sua compaixão

É tão pouco, muito louco
Ser flor e pedra em seu caminho
Sofrer, gemer, quase em silêncio
Morder seu nome no lenço
Ver nossa história por um fio
É tão vazio

Vai ver que esse trem que você viaja
Não tem janela não
Não tem casa na colina

Não tem pôr-do-sol lá em cima
É você que está cego e não me vê viajando
Na mais cruel ilusão



TH - Memorável música e videoclip!


terça-feira, 29 de março de 2011

ÚLTIMA FAIXA: Do Sul pra cima é tudo "Bahia"? (Crônica)


[Baseada na ideia do amigo Felipe Ramirez*]
[Ao som de "Bicho Maluco Beleza"]


Quando resolvi dispor de Alceu Valença para ser o artista de Março no EnTHulho, notei que houve uma sutil reserva da parte da maior parte dos freqüentadores do blog. Ironicamente, salvo raras exceções (não se pode nunca trabalhar com generalizações), os que aplaudiram a ideia foram meus amigos nordestinos.
Tricotei a respeito com meu amigo pernambucano Felipe Ramirez e chegamos a uma conclusão: Alceu é tão mestre cultural e grandioso como Tom Jobim e Chico Buarque. Quem é de fora do Nordeste é que não vê.
Nesse primeiro mês morando em terras paulistanas, percebi que há muita camaradagem sim com pessoas de outras regiões do país, porém os cidadãos ditos culturais dessas bandas não possuem o alcance exato e delimitado do que a maioria dos artistas do Nordeste podem oferecer. Semana passada, quando fui cortar cabelo, ouvi, segurando ar, a seguinte frase: "Nordeste é tudo Bahia". Há três semanas, quando fui a Santos de ônibus, ouvi algo semelhante, associando todos os nordestinos a "paraíbas feios" e "cearenses de cabeça chata". Não que eu não soubesse que, em determinado momento, iria sim ouvir coisas pouco lisonjeiras em relação à minha região natal, entretanto mais injustificável ainda, ao meu ver, é a ignorância cultural.
Alceu Valença, grande letrista, com inúmeras referências literárias - alcançando inclusive cultura estrangeira (ler o texto do post anterior) não deixa nada a dever mesmo a quaisquer artistas mais óbvios da música brasileira. A simplicidade grita (comenta-se inclusive que tem um vaso sanitário no terraço de seu estúdio, ao ar livre, onde costuma "obrar" olhando a paisagem!), a simpatia evidencia (meu pai inclusive já tocou com ele, improvisadamente, em Mossoró, Rio Grande do Norte) e a energia contagia (seus shows no Nordeste costumam lotar facilmente...).
Eu sinto falta sim de vê-lo figurar dentre os compositores mais gravados, tendo apenas seus companheiros nordestinos como seus principais intérpretes.
Tá na hora dos novos músicos descobrirem a grandeza de suas histórias musicadas ("pelas Ruas que andou"), suas musas (La Belle du Jour, Bela Inês, a Morena Tropicana, Margarida, Maria, a Moça Bonita de Cabelos Longos, e muitas mais), e seus verdadeiros clássicos "agalopados", apresentando, assim, a mais merecida homenagem que nosso mestre nordestino merece...

Metade desabafo pessoal, metade homenagem, mas tá valendo!


THIAGO HENRICK


* Felipe mora atualmente na Paraíba-PB e é leitor assíduo do EnTHulho. Relembre sua participação como amigo musical convidado aqui!






LITERATURA DE ALCEU...


As letras que Alceu Valença compõe para suas músicas têm vida própria, quando simplesmente lidas? Ou somente adquirem significado se acompanhadas de sua música? Noutras palavras: quem faz letra de música faz literatura? Na realidade, quero tratar o tema através de uma outra abordagem. A presença da literatura em sua obra, presença essa farta e visível.
Ao longo dos seus discos, a marca constante: a presença de autores populares e eruditos, citados em suas canções ou homenageados nas dedicatórias. O interessante é destacar que Alceu venera e homenageia desde os poetas populares, aqueles que percorriam as ruas de sua infância com seu canto de improviso, aos intelectuais mais reconhecidos.

De Buñuel a Mocinha de Passira

Ora é um cineasta, como Luis Buñuel (in La Belle de Jour e in Maracajá), ou um naturalista, como Augusto Ruschi (in Espelho Cristalino), ora um companheiro de ofício, como Raul Seixas (in Bicho Maluco Beleza), João do Vale (in Cabelo no Pente), Luiz Vieira e seu menino passarinho (in Eu Te Amo), Jackson do Pandeiro e Ari Lobo (in Fé na Perua) e Luiz Melodia (in Maria Sente).
Essa reverência passa pelos cantadores populares, tais como Dimas, Vitorino, Pinto do Monteiro, Lourival - o Louro do Pajeú -, Oliveira, Castanha, Beija-Flor e Mocinha de Passira (in Martelo Agalopado), cada um deles o "cantador do inconsciente coletivo, canta a força do povo e o desengano", no dizer de Alceu, pois têm "os pés calejados dos ciganos e (são) poetas perfeitos e soberanos", levando sua arte do verso improvisado à praça.
Noutros instantes Alceu se volta para o elogio aos animadores da cultura popular como Bajardo, "O pintor de Olinda" (in Bicho Maluco Beleza), Cacho-de-Coco (in Sou Eu Teu Amor), Mãe Nina (in Ciranda da Mãe Nina) e Dona Santa do maracatu (in De Onde Vem?). Percorre as canções de autoria do povo nordestino, incluindo-as em sua música, e busca a inspiração em personagens que povoam a cultura popular, sejam reais como o Capitão Corisco, anônimos como o "velho safado" do Pastoril, ou fictícios, tais como Viramundo, Pedro Malazartes, João Grilo, Cancão de Fogo...
Às vezes, como um Zé Limeira redivivo, semeia citações de pessoas que marcaram o seu mundo - quem sabe, o mundo de todos nós: Neil Armstrong e sua caminhada na lua (in Seixo Miúdo), os apóstolos Pedro e Paulo (in Pontos Cardeais), Guevara, Camilo e Sandino, com seu "sonho libertário" (in Romance da Bela Inês) e Luiz Carlos Prestes, o velho cavaleiro montado em sua utopia (in Pra Clarear), Maurício de Nassau (in O Carnaval de Minha Janela), Calabar, John Lennon, Charles Chaplin, Tiradentes, Frei Caneca e Virgulino, o Lampião (in Maria Sente).

Parceria com poetas

Mas Alceu também passeia pelo erudito e são muitos os intelectuais, aqueles dos livros - além dos da rua e do imaginário - que perpassam sua obra. Seja quando Alceu faz poesia com os nomes das ruas do Recife e de Olinda, que são as ruas da infância do poeta Manuel Bandeira, seja quando se declara um Dom Quixote liberto de Cervantes (in Agalopado).
São muitos os autores e várias as citações: João Cabral de Mello Neto (in Cana Caiana), Carlos Drummond de Andrade (in Pra Clarear e in Maracajá), Camões (in Romance da Bela Inês e in Maracajá), Fernando Pessoa (in Maracajá), Mário Quintana (in Senhora Dona), Jorge Amado (in Chuva de Cajus), Ulisses (in Anjo de Fogo) e Mário de Andrade e seu delicioso Macunaíma (in Que Grilo Que Dá - Rock de Repente).
Mas dois poetas têm um espaço privilegiado na obra de Alceu Valença. Transformaram-se, embora ja mortos, em parceiros preferidos. Um é Ascenso Ferreira, que proporcionou a Alceu o seu primeiro sucesso nacional, ainda nos primórdios da carreira (1972) e que teve outro poema seu musicado (Vou Danado Pra Catende e Maracatu). Outro é Carlos Penna Filho, cujos poemas inspiraram também duas canções a Alceu: Solibar, que transportou para a canção versos que todos os boêmios pernambucanos sabem de cór e Sino de Ouro.
Assim, discutir literatura na obra de Alceu Valença é, acima de tudo, registrar o profundo amor que ele demonstra pela cultura popular e erudita e o quanto ele coloca a sua música a serviço de artistas e intelectuais, como uma homenagem que, ao mesmo tempo, valoriza e enriquece a sua própria obra.


[Texto de Romildo Gouveia Pinto, para o portal www.nordesteweb.com]


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Esse texto reproduz muito do que eu queria expressar esse mês ao eleger o Alceu como o artista de Março. Eu acredito sim que quem faz letra de música é partidário da literatura, sobretudo quando invoca elementos tão regionalistas como faz Alceu. Mas não é apenas isso - como diz no texto, nosso nordestino vale-se de sua versatilidade pra homenagear vertentes bastante diversas da cultura mundial. Há como não conferir mérito à sua obra?


Corroborarei esta minha linha de pensamento no próximo post, na seção "ÚLTIMA FAIXA".


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CORAÇÃO BOBO
Alceu Valença. [No vídeo, dueto com Zé Ramalho]

Meu coração tá batendo
Como quem diz: "Não tem jeito!"
Zabumba bumba esquisito
Batendo dentro do peito...
Teu coração tá batendo
Como quem diz: "Não tem jeito!"
O coração dos aflitos
Pipoca dentro do peito
O coração dos aflitos
Pipoca dentro do peito...

Coração-bobo
Coração-bola
Coração-balão
Coração-São-João
A gente Se ilude, dizendo: "Já não há mais coração!"...

Bobo, bola, balão São-João
A gente Se ilude, dizendo: "Já não há mais coração!"


TH - Lembra demais minha infância...

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