terça-feira, 29 de março de 2011

ÚLTIMA FAIXA: Do Sul pra cima é tudo "Bahia"? (Crônica)


[Baseada na ideia do amigo Felipe Ramirez*]
[Ao som de "Bicho Maluco Beleza"]


Quando resolvi dispor de Alceu Valença para ser o artista de Março no EnTHulho, notei que houve uma sutil reserva da parte da maior parte dos freqüentadores do blog. Ironicamente, salvo raras exceções (não se pode nunca trabalhar com generalizações), os que aplaudiram a ideia foram meus amigos nordestinos.
Tricotei a respeito com meu amigo pernambucano Felipe Ramirez e chegamos a uma conclusão: Alceu é tão mestre cultural e grandioso como Tom Jobim e Chico Buarque. Quem é de fora do Nordeste é que não vê.
Nesse primeiro mês morando em terras paulistanas, percebi que há muita camaradagem sim com pessoas de outras regiões do país, porém os cidadãos ditos culturais dessas bandas não possuem o alcance exato e delimitado do que a maioria dos artistas do Nordeste podem oferecer. Semana passada, quando fui cortar cabelo, ouvi, segurando ar, a seguinte frase: "Nordeste é tudo Bahia". Há três semanas, quando fui a Santos de ônibus, ouvi algo semelhante, associando todos os nordestinos a "paraíbas feios" e "cearenses de cabeça chata". Não que eu não soubesse que, em determinado momento, iria sim ouvir coisas pouco lisonjeiras em relação à minha região natal, entretanto mais injustificável ainda, ao meu ver, é a ignorância cultural.
Alceu Valença, grande letrista, com inúmeras referências literárias - alcançando inclusive cultura estrangeira (ler o texto do post anterior) não deixa nada a dever mesmo a quaisquer artistas mais óbvios da música brasileira. A simplicidade grita (comenta-se inclusive que tem um vaso sanitário no terraço de seu estúdio, ao ar livre, onde costuma "obrar" olhando a paisagem!), a simpatia evidencia (meu pai inclusive já tocou com ele, improvisadamente, em Mossoró, Rio Grande do Norte) e a energia contagia (seus shows no Nordeste costumam lotar facilmente...).
Eu sinto falta sim de vê-lo figurar dentre os compositores mais gravados, tendo apenas seus companheiros nordestinos como seus principais intérpretes.
Tá na hora dos novos músicos descobrirem a grandeza de suas histórias musicadas ("pelas Ruas que andou"), suas musas (La Belle du Jour, Bela Inês, a Morena Tropicana, Margarida, Maria, a Moça Bonita de Cabelos Longos, e muitas mais), e seus verdadeiros clássicos "agalopados", apresentando, assim, a mais merecida homenagem que nosso mestre nordestino merece...

Metade desabafo pessoal, metade homenagem, mas tá valendo!


THIAGO HENRICK


* Felipe mora atualmente na Paraíba-PB e é leitor assíduo do EnTHulho. Relembre sua participação como amigo musical convidado aqui!






7 comentários:

  1. Justas as palavras.
    Idem para o sentimento.
    Aos nordestinos o que é dos nordestinos.
    Eu, contudo, prefiro pensar em todos nós apenas enquanto PESSOAS.
    Todo o mais é a maldita mania de segregar de que, em séculos, o homem ainda não conseguiu se livrar.
    Brigam até pra rezar para o MESMO DEUS!
    Fazem de inimigo aquele que é IRMÃO.
    Enfim.
    Cada um com suas paixões.
    Há espaço debaixo desse sol para todas elas.
    =)

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  2. Observação: apesar do texto ser baseado numa conversa com o Felipe, o título, além de ser inspirado na conversa do cabeleireiro que eu relatei, também foi sugerido pelo amigo do RJ Marcelo Ramos, que também rechaça qualquer preconceito contra os nordestinos.

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  3. oi querido. hoje fiz um post sobre música e lembrei de ti... coloquei lá um link pro teu blog como referência pois é muito bom aqui!!! mais gente precisa ver, mesmo os gatos pingados que por lá passam!!! um bjo grande

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  4. Thhhhhhhhhh

    Adorei a crítica que você fez e ter meu nome citado nela!! hehehahaha

    Ficou ótima, amigo

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  5. numa palavra, THiago: estereótipos. Qualquer leitura que se faça em relação a uma outra cultura (neste caso regional) é carregada de impressões estereotipadas.

    O Nordeste, não por acaso, é uma das regiões brasileiras que mais sofre com o preconceito. São Paulo, onde você hoje reside, deve muito as nordestinos que aí literalmente ergueram a cidade, braços que são da construção civil. No entanto, além de sub-empregos, aos nordestinos também são atribuídos tipificações sub-humanas. Cresce uma visão neo-nazista, THiago, desumana.

    Estou bastante preocupado com os rumos que a cultura e a sociedade brasileiras estão tomando...

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  6. Gostei muito desse post, sou paulista por descuido, meus pais são nordestinos. E desde pequena ouço Alceu e sempre adorei, acho uma verdadeira riqueza a musicalidade dele!

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