terça-feira, 23 de novembro de 2010

OS MUTANTES COM ZÉLIA DUNCAN: REFLEXÃO SOBRE A DESFEITA UNIÃO


Zélia: "Foi a maior aventura da minha vida"


Primeiro vamos falar dos Mutantes. Não são aqueles lá da (grotesca) trilogia-novelística da Rede Record. Trata-se da melhor banda de rock nacional - reinventiva e surtada, reconhecida e devotada por muita gente de fora como Kurt Cobain, Beck e David Bowie. Começaram na década de 60 e sua formação original contava com Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias. Sua música misturava diversos ritmos brasileiros ao rock e possuia um apelo mundial, conferindo também um puta serviço ao movimento musical da Tropicália. Hinos como "Top Top", "Fuga nº II", "Ando Meio Desligado", "Panis Et Circenses" grudavam, ironicamente por serem totalmente anti-comerciais e pregarem antes de qualquer coisa o serviço necessário ao rock no país. Num dado momento, Rita se revoltou contra o caminho que as coisas tavam indo e saiu (ou foi demitida, nunca se sabe ao certo) e a banda continuou, até anunciar sua dissolução oficial ainda na década de 70.
2006: num evento em Londres dedicado à Tropicália, o quarteto Gal Costa, Tom Zé, Caetano Veloso e Gilberto Gil confirmaram presença. Choveram, então, na mídia boatos de que os Mutantes voltariam e inundaram hipóteses sobre quem substituiria Rita Lee, que não topou o regresso: "Parecem um bando de velhinhos querendo garantir a aposentadoria". Liminha, produtor e responsável por grande parte do sucesso da antiga formação, também não quis. Sérgio conheceu Zélia Duncan em certa ocasião e fez o convite por telefone: "Ela parecia realmente ser uma de nós, uma mutante convicta." Zélia, hesitante, ligou pra amiga Rita Lee e só então aceitou participar, consagrando o então retorno da banda.
Os fãs, claro, se dividiram. A alegria pela volta do grupo repartiu opiniões de quem achava que seria o mico musical do milênio, ainda mais com uma cantora de voz cheia de testosterona e completamente diferente da de Rita. "A Zélia não quer nem precisa ser a Rita. Ela vai doar um pouco do seu universo pra gente na participação e isso basta"
Ficaram juntos por um ano. Além do festejado show em Londres (que rendeu um DVD), voltaram ao Brasil e fizeram grandes shows em terras tupiniquins. Um deles, este que vos fala teve o prazer de contemplar, que foi no festejado Abril Pro Rock, de 2007, em Recife.
Então começaram os problemas. Zélia já havia deixado claro que não abandonaria sua (sólida) carreira solo, apesar de proclamar com alegria em seus shows que era uma mutante com orgulho. Lembro do mico que foi, num Altas Horas com os Mutantes, que pediram pra Zélia cantar "Catedral" no meio de uma apresentação da banda (...)
Como se concluisse um ciclo, Zélia deixou a banda e isso fez com que seu ex companheiro Sérgio Dias disparasse à imprensa: "Apressei-me em julgá-la como mutante. Ela parecia tanto sê-lo. A Zélia está mais para um "transformer"". Zélia evitou comentar sobre as declarações, mas ainda assim disparou: "Parece que quem dá esse título é a rainha da Inglaterra. Quem é menos mutante é ele (Sérgio), que fica naquele mesmo lugar". Sérgio tentou desfazer o mal entendido na imprensa, mas parecia já ser tarde...
Diferenças entre os membros à parte, vamos refletir um pouco: foi válida essa participação de Zélia nos Mutantes? Fez bem à carreira dela e somou alguma coisa à veterana banda?
Quando a notícia apareceu, minha primeira reação foi a de alegria: "Putz, minha cantora favorita, cantando na minha banda de rock preferida. Que máximo!!" Vi na TV o desempenho de Zélia com eles e tudo o que consegui pensar foi que a cantora trouxe uma dignidade gritante à banda - talvez isso pode ter, num futuro momento, soado como um defeito grave, visto que arranhou um pouco a anarquia que tanto foi marca característica de Arnaldo e Sérgio. Para a carreira de Zélia, da mesma forma, houve aspectos negativos. A cantora foi taxada de oportunista e de exagero na dose midiática. Em entrevista para o site "Música do Brasil", ela comenta o fato:

"Eu não acho que exagerei não, foi como eu quis, queria passar por isso. Era um risco tão grande que até acredito que saí ilesa. No sentido artístico foi ótimo para mim. Claro que tinha gente que queria me matar porque entrei nos Mutantes, mas sempre tem gente querendo matar outras por algum motivo. Eu tive momentos de extrema alegria com os Mutantes. O show de Londres foi maravilhoso, o show de São Paulo no Monumento do Ipiranga foi histórico, teve um em Porto Alegre que foi uma loucura, fizemos ainda um show em San Francisco, incrível. Então, eu tive a oportunidade de estar no palco com aqueles caras, e vivendo o rock'n'roll já com uma carreira solo, um privilégio para mim. Mas tinha de ter saído mesmo na hora que eu saí. Se eu tinha que ter entrado? Ah, tinha. Em relação a mim mesma, sim. E para a banda foi muito importante ali naquele momento. Eles precisavam de alguém, e algumas pessoas não tinham dado certo. E quando Sérgio me conheceu, foi fulminante. Entrei numas, liguei para a Rita, ela deu força, e falei, 'cara, vou viver isso, dane-se'. Mas a segunda turnê para a Europa foi heavy. Se não fosse, eu continuaria mais um pouco só. Eu não precisava ter saído de repente. Mas eu sou uma mulher de 44 anos (na época). Chegar, por exemplo, no aeroporto de Lisboa, não ter nenhum carregador e 50 volumes para todo mundo carregar. Desculpa, não vou fazer. Não vou, mentira, porque na hora eu fiz. Eu gosto de rock'n'roll, mas da música."

Fiquemos, então, com a reflexão, e um registro da parceria que com certeza entrará para a história do rock brasileiro!



A trupe que poderia ter dado (mais) certo (ainda)



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FUGA N. II
Os Mutantes. Participação especial: Zélia Duncan

Hoje eu vou fugir de casa
Vou levar a mala cheia de ilusão
Vou deixar alguma coisa velha
Esparramada toda pelo chão
Vou correr no automóvel enorme e forte
A sorte a morte a esperar
Vultos altos e baixos
Que me assustavam só em olhar

Pra onde eu vou, ah
Pra onde eu vou, venha também
Pra onde eu vou, venha também
Pra onde eu vou

Faróis altos e baixos que me fotografam
A me procurar
Dois olhos de mercúrio iluminam meus passos
A me espionar
O sinal está vermelho e os carros vão passando
E eu ando, ando, ando...Minha roupa atravessa e me leva pela mão
Do chão, do chão, do chão...


TH - Eu AMO essa...seja com Rita ou com Zélia!



sábado, 20 de novembro de 2010

AMIGO MUSICAL CONVIDADO #18 - Ale Moura


Saudade é uma palavra que só existe na língua portuguesa.

Descreve tantos sentimentos....perda, distância, amor, nostalgia por tempos que não voltam, por pessoas que não estão mais no nosso mundo ou se encontram distantes de nosso convívio diário. Dói. É um sentimento que dói pra caramba, nem que seja de uma cidade antiga que de alguma forma fez parte de nossa saga.
A dor nos corta de forma bem cruel às vezes. Então a saudade se torna parceira mais fiel da melancolia e pega mesmo no nosso pé, até a eliminarmos de alguma forma: matando-a quando possível ou nos conformando.
Minha relação com a Lê tem muito disso. Eu sinto muita falta de momentos que “não vivemos”. Difícil de entender? O fato é que entre minha mana e eu sempre houve muito mais “vontade” de viver junto do que isso realmente aconteceu. Tivemos fases mais próximas, experimentamos por um curto tempo o convívio cotidiano e junto mas, infelizmente, os acontecimentos e as pessoas nos fizeram passar a maior parte de nossas vidas distantes. Mas ainda assim vivo sentindo falta!
Talvez por isso não me seja custoso dizer que a amo com tanta dificuldade como (não) faço com parentes mais próximos. A gente não deveria ser assim – é reconfortante dizer pra quem se ama o quanto se ama e isso faz um bem enorme. Por mais que atitudes falem mais do que palavras, estas são bem vindas a qualquer tempo e circunstância...
Voltando à protagonista carioca da seção de hoje, a verve musical sem dúvidas é o elemento que mais nos une e hoje, dia de seu aniversário, trago-a para dar sua (ótima) dica aos leitores do EnTHulho Musical. Recomendo de olhos fechados e morrendo de vontade de dar um dos maiores calorosos abraços de saudade nela :´(
FELIZ ANIVERSÁRIO!!

P.s.: Ela não topou aparecer na foto sozinha ou colocar seu nome completo. É cheia de reservas com o mundo virtual, como outros amigos que já passaram por essa seção. O vídeo abaixo da música foi criado especialmente para a música por Dan MCphee, o "Menino Cheio de Imaginação", dono do http://www.alfarrabiodomeucoracao.blogspot.com/ . Mais um adepto da discrição da internet! =p




Brincadeira com a letra da música



Responder uma pergunta como essa foi desafiador.
Apontar uma música que me marcou a vida é sinônimo de liquidificar todos os meus momentos. São tantas músicas, artistas e emoções vivida em cada fase que eleger apenas um representante se torna impossível. E isso se agrava por eu ter uma relação sublime com poesias musicais desde pequenininha...
Eu poderia citar as mais belas letras e melodias de Toquinho e Vinícius, dupla imbatível na vivência de tantos admiradores de boa música. Poderia escolher a atitude e rebeldia de Cazuza, aquele típico ídolo de se ter posters ou colecionar fotos, sem nem ter assimilado a importância que seu comportamento inquieto teve pra desbancar o sistema (eu era uma pirralha e estava mesmo era apaixonada por ele! Rssss). Ou ainda relembrar de sucessos fofinhos de Kid Abelha, que embalaram as primeiras batidas mais fortes de meu coração por alguém...talvez mencionasse inclusive Gil e Caetano, que aprendi a amar com louvor graças aos adultos com quem quando criança mais sempre conversava, até do que com outros de minha idade.
Mas, quer saber? Memória musical que marca mesmo é a infantil e quando me recordo de bons momentos, eu sempre busco na “telinha interior” todas as cantigas que costumava ouvir quando pequena. Dentre elas, uma me fazia sambar de verdade!!! Samba lelê é acertadamente a música que mais me marcou, em qualquer versão. O curioso é que passei um boooooooom tempo “brincando de adulta” que simplesmente esqueci-me da existência da canção. Ao assistir um show do Zé Renato, ele começou a cantá-la e senti um verdadeiro “arrepio” de nostalgia. Acompanhando com o pezinho e delirando de emoção. Acho que o conceito de “música que nos marcou” é algo próximo disso!
Samba lelê é uma cantiga bonita, despreocupada e feliz. Uma verdadeira criança que quer brincar de roda. Que os pequenos de hoje sintam essa energia contagiante e batam palma junto, aplaudindo a melhor fase de suas vidas!

ALÊ MOURA



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SAMBA LELÊ
Cantiga popular. Versão: Zé Renato

Samba Lelê está doente
Está com a cabeça quebrada
Samba Lelê precisava
É de uma boa lambada

Samba, samba, samba ô Lelê
Samba, samba, samba ô lalá
Samba, Samba, Samba ô lelê
Pisa na barra da saia ô Lalá!


TH - Recordar é mesmo viver!


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

INTERNACIONAL ESPECIALMENTE CONVIDADA: VIOLETA PARRA!

A poetisa chilena nos brinda com "verdades musicadas" de alcance mundial!


E eis que, como sabem, o EnTHulho é um blog de música brasileira em sua essência. De todos os tipos, todos os estilos (ops...pagode ainda não...rs) e com os mais variados artistas brazucas. No entanto, volta e meia trago aqui alguns artistas internacionais que, de certa forma, tem a ver com o universo nosso, seja nas afinidades, seja nas composições gravadas ou parcerias realizadas. Foi assim com Nuno Mindellis, Madredeus...a comunicabilidade da nossa música com as demais do mundo é espetacular.
Nesse meio, trouxe hoje algumas considerações sobre a poetisa chilena Violeta Del Carmen Parra Sandoval, ou simplesmente Violeta Parra. Decidi falar dela por ter revisto, no youtube, um vídeo de Milton Nascimento, em dueto com Mercedes Sosa (que já teve a merecida homenagem também aqui no EnTHulho), cantando a belíssima canção Volver a Los 17, de autoria de Violeta.

Abaixo, uma breve biografia da chilena, baseada no texto do Wikipedia Brasil:


"Nasceu em San Carlos, província de Ñuble. Realizou seus estudos escolares até o segundo ano do secundário, abandonando-os em 1934, para trabalhar e cantar com seus irmãos em bares e circos, desenvolvendo uma importante carreira musical, como autodidata, a partir dos 9 anos. Em 1938, casou-se pela primeira vez e dessa união, teve dois filhos, Isabel e Ángel, que também viriam a se tornar compositores e intérpretes importantes. Viveu em Valparaíso entre 1943 e 1945, e voltou a Santiago, para cantar junto com seus filhos. Em 1949 voltou a se casar e teve duas filhas dessa nova união. Em 1952 começou a pesquisar as raízes folclóricas chilenas e compôs os primeiros temas musicais que a fariam famosa. Em 1954, quando já tinha o seu próprio programa de rádio, começou um rigoroso estudo das manifestações artísticas populares. Durante o ano de 1955 visitou a União Soviética, Londres e Paris, cidade onde residiu por dois anos. Realizou gravações para a BBC e os selos Odeón e "Chant du Monde". Em 1957 radicou-se em Concepción, voltando a Santiago no ano seguinte para começar sua produção plástica. Percorreu todo o país, recompilando e difundindo informações sobre o folclore. Em 1961, mudou-se para a Argentina, onde fez grande sucesso com suas apresentações. Voltou a Paris e ali permaneceu por três anos, percorrendo várias cidades da Europa, destacando-se suas visitas a Genebra. Em 1965 voltou ao Chile, viajou para a Bolívia e, ao regressar a seu país, instalou uma grande tenda na comuna de La Reina, com o plano de convertê-la em um centro de referência para a cultura folclórica do Chile, juntamente com os filhos, Ángel e Isabel, e os folcloristas Patricio Manns, Rolando Alarcón e Víctor Jara, entre outros. No entanto, a iniciativa não obteve sucesso. Emocionalmente abatida pelo fracasso do empreendimento e pelo dramático final de um relacionamento amoroso, Violeta Parra suicidou-se em 5 de fevereiro de 1967, na tenda de La Reina."

COMENTÁRIO DE TH: Falando agora de sua obra, numa breve pesquisa musical que fiz (compreendendo fazer downloads de alguns sucessos seus), notei que grande parte de seu repertório, semelhante ao de Mercedes Sosa, destina-se a fazer duras críticas sociais contra injustiças - alguns indo até o fundo da alma dilacerada dos oprimidos ("Rin de Angelito", por exemplo, narra a morte de um bebê miserável)...Pode-se dizer que ela deu voz aos mais fracos em inúmeros momentos, e que criou com efeito a música popular folclórica chilena - de alcance mundial. No entanto, resta também espaço para dizer através da música suas lamúrias do coração, com verdadeiras poesias musicadas.
Aqui no Brasil, Elis Regina gravou a antológica "Gracias a La Vida". Acredito este ter sido meu primeiro contato com Violeta. Num projeto em Curitiba, no ano de 2005, fiquei encantado ao ver (pela internet, lógico), a atriz Letícia Sabatella (de quem sou grande fã), entoando seu belo timbre para cantar um sucesso da artista e, por fim, temos o já mencionado dueto com as vozes celestiais de Milton e Mercedes, cuja letra vem a seguir.



Violeta: alma melancólica e atormentada a fez cometer suicídio em 1967



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VOLVER A LOS DIECISIETE
Violeta Parra. Milton Nascimento e Mercedes Sosa

Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
Es como descifrar signos sin ser sabio competente,
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a Dios
Eso es lo que siento yo en este instante fecundo.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

Mi paso retrocedido cuando el de ustedes avanza
El arco de las alianzas ha penetrado en mi nido
Con todo su colorido se ha paseado por mis venas
Y hasta la dura cadena con que nos ata el destino
Es como un diamante fino que alumbra mi alma serena.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber
Ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamiento
Todo lo cambia al momento cual mago condescendiente
Nos aleja dulcemente de rencores y violencias
Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

El amor es torbellino de pureza original
Hasta el feroz animal susurra su dulce trino
Detiene a los peregrinos, libera a los prisioneros,
El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño
Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

De par en par la ventana se abrió como por encanto
Entró el amor con su manto como una tibia mañana
Al son de su bella diana hizo brotar el jazmín
Volando cual serafín al cielo le puso aretes
Mis años en diecisiete los convirtió el querubín.



TH - Justíssima homenagem!


*O primeiro vídeo mostra a parceria de Milton e Mercedes, no Fantástico, em 1976. No segundo, a gravação de Violeta.






segunda-feira, 15 de novembro de 2010

MÚSICA MEMÓRIA AFETIVA: SANTO DE CASA FAZ MILAGRE SIM!


Essa seção do EnTHulho, como sabem, é um verdadeiro bálsamo: utilizo a música pra me teletransportar pra inúmeros THs outros - o criança, o adolescente, o reticente, o confiante, o romântico, o melancólico...
Milagreiro - o disco - me remete muito ao início da minha faculdade. Essa obra prima de Djavan é um dos melhores discos de MPB da década de 2000. Milagreiro - a música - conta com a participação especialíssima de Cássia Eller, ironicamente naquele ano que morreu (2001). A canção me soou bem mais melancólica do que é pois eu era um fã de Cássia e estava de luto por todo aquele período (que as rádios marqueteiramente jorravam hits de Cássia incansadamente) Djavan criou uma letra baseada em literatura de cordel que contou com a voz de Thor da nossa eterna "malandra", fazendo um interessante contraponto com a suave do alagoano.
O salto aqui foi direto ao tempo de TH recém adulto e recém órfão de Cássia, numa música que o enche de emoção a cada audição...adoraria ver um registro de ambos, ao vivo, e testemunhar a carga emotiva que costumeiramente fazem (ou no caso dela, infelizmente, fazia) em suas apresentações...


O disco e Cássia: literatura de cordel e clima melancólico bem defendido por suas vozes!



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MILAGREIRO
Djavan. Djavan e Cássia Eller

Agora vamos ter os girassóis
Do fim do ano
E o calor vem desumano
Tudo irá se expandir
Crescer com as águas
Quiçá, amores nos corações
E um santeiro,
Milagreiro
Prevê a dor
De terceiros
E diz que a vida
É feita de ilusão
E um santeiro,
Milagreiro
Prevê a dor
De terceiros
E diz que a vida
É feita de ilusão
Aquela que um dia o fez sonhar
Se foi com o outro
No dia em que os dois
Se casariam por amor
Ele aluou
Hoje o seu pesar
Cintila nos varais
Usou as sete vidas
E não foi feliz jamais
Toda a imensidão
Passou pela vida
E foi cair na solidão
Mais um santo para esculpir é o que lhe vale
Pra evitar que o rancor suas ervas espalhe



TH - Suspiro saudoso...



sexta-feira, 12 de novembro de 2010

LISTA: OS PARCEIROS DE ZÉLIA DUNCAN!





Já disse aqui que o carisma e a agradabilidade de Zélia Duncan são grandes trunfos seus – pouco se vê na música brasileira uma artista que consegue manter uma sinergia tão positiva com o público. Fã de Zélia, contudo, não é apenas que vai aos seus shows ou compra seus discos. Seus colegas da música volta e meia dão declarações apaixonadas e acaloradas sobre Ms. Duncan, e bolam alguma desculpa pra chegar e fazer junto alguma coisa. E ela retribui, conseguindo a proeza de ser a cantora com mais participações conjuntas com outros artistas – isso se dá, repito, à facilidade que a moça tem de convergir e deixar o parceiro totalmente à vontade. Hoje, é raro quem ainda não fez parceria com ela – O que a nossa música já teve de rivalidades, compensa com Zélia e sua bela política de “gentilezas musicais”. Seja cantando em dueto, seja gravando composições suas ou oferecendo as suas pra ela, há um elo afetivo-musical invejável quando se trata de Zélia com outras esferas musicais afins.
Logo, elaborar essa lista foi uma tarefa muuuuuito árdua – mas procurei elencar os artistas que mais participam, de uma forma ou de outra, com o universo “Duncan”!

Espero que gostem do resultado!



1) RITA LEE

Rita Lee está em primeiro lugar por uma razão óbvia: Zélia é hoje a cantora que mais se aproxima de seu universo. Há uma facilidade imensa em cantar suas composições – e isso se verifica em hits como “Lá Vou Eu”, ou releituras oportunas como “Pirataria”. O auge da parceria foi mesmo com “Pagu”, música de Rita musicada por Zélia que integrou o álbum 3001, de 2000. Rita retribuiu a gentileza e musicou o rap “Desconforto”, que Zélia gravou junto ao Posse-Mente-Zulu e fez parte do disco “Sortimento” (2001). Quando Zélia integrou os Mutantes, a imprensa e os fãs antigos da banda quiseram rivalizá-las, o que nunca aconteceu. Rita é categórica: “Zélia é uma coisinha fofa né?” . E é retribuída: “Salve a grande rainha Rita Lee”. De qualquer forma, a gravação de “Ambição”, no último disco de Zélia, selaria de vez a “celeuma inventada”.

2) PAULINHO MOSKA


Paulinho tem todos os elos possíveis com Zélia. Dividiram, além do músico Christiaan Oyens, grandes parcerias. Ele já fez músicas que ela gravou. Ele já musicou letras suas e também já fizeram o inverso. Seria tudo tão habitual se não fosse o amor que ambos nutrem mutuamente- evidenciado quando eventualmente conferem “canjas” em shows um do outro. É muito legal ver tamanha camaradagem num mundo artístico tão competitivo e hostil. Hits certeiros: “A Idade do Céu”. “Carne e Osso (tema de abertura de “Se7e Pecados”, atual reprise do Vale a Pena Ver de Novo), “Não”, “Sinto Encanto”...
E, claro: registro a sensível composição que Zélia fez para o filho de Moska, Antônio, hoje com 13 anos - “O Tom do Amor”, que está no último disco do cantor.

3) LENINE

‘A gente é vizinho não apenas de bairro, somos vizinhos de ideias”. Lenine define, nos extras do DVD “Sortimento Vivo”, o quanto estabelece uma sintonia com a cantora. E começam um show improvisado – ora cantam uma música dela, ora dele, ora de outros – com um entendimento totalmente musical – um acorde apenas do violão pra saberem qual será a próxima música, numa afinidade impressionante. “Lenine é meu vizinho, a gente vive batendo bola. Antes do disco dele sair (Na pressão), ele foi lá em casa com o CDR, eu ouvi com ele. O mesmo aconteceu com o anterior (O Dia em que faremos contato)”.
Juntos, Zélia e Lenine gravaram a canção “Naturalmente”, além de dividirem o vocal de “Bebete Vãobora”, do Jorge Ben Jor (do show especial “Cidade do Samba”); o pout-porri “Certas Coisas/Wave” (Lonas acústico) e foi ele quem fez a brincalhona letra da música-título do álbum “Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band”, dela.

4) LUCINA


“Fui ver um show na Sala Funarte em Brasília e fiquei muito contente em ouvir uma cantora com uma bela voz grave igual à minha, pois eu já tinha um complexo. E vale registrar que fui completamente ignorada quando fui me apresentar a ela!”. Esse primeiro encontro torto logo a seguir rendeu uma das maiores e mais felizes parcerias musicais. Composição, música, tudo junto. Lucina representa, como própria Zélia afirma, “seu lado hippie’, logo, as canções mais confessionais e intimistas da cantora tem grande contribuição dessa mato-grossense que já tem uma bela carreira solo, infelizmente pouco conhecida na música brasileira. Parcerias das duas: “Coração na Boca”, “Eu Nunca Estava Lá”, “Eu Não Sou Eu”, dentre muitas outras. Destaque pra participação de Zélia no show “+ do que parece”, lançado no ano passado.

5) ITAMAR ASSUMPÇÃO

“Meu irmão Afonso ouvia muita coisa em casa que eu sempre adorava, inclusive o Itamar Assumpção. E o meu sonho de consumo era ser backing dele. Então eu comecei a prestar atenção em suas músicas e notei que nelas nada se joga fora. Ele tem uma inteligência sofisticada, o seu jeito de baixista é diferente. A primeira vez que cantei uma música dele foi em 85, e a música foi "Beijo na Boca". E eu dizia quando eu estourei com "Catedral" que quem me inspirava era ele. Adorei quando ele me chamou para cantar” Além desse relato de Zélia a Marcelo Tas, fã que é fã da cantora sabe que desde o disco “Intimidade”, em todos seus trabalhos sempre constam ao menos uma música de Itamar. Ela é bastante fervorosa ao defendê-lo, sobretudo quando taxam-no de “maldito” “Todas as pessoas deveriam ao menos conhecer uma música de Itamar. Pra sempre vou “Itamar” “, encerra.
P.s.: Bela a participação de Anelis Assumpção, filha de Itamar, com Zélia na música “Milágrimas”

6) CHRISTIAAN OYENS


Junto a Lucina, é o parceiro de composições mais constante. “meu lado pop”. Inegável o quando ambos funcionavam juntos – Christian foi responsável pelos maiores sucessos radiofônicos de Zélia. “Cateral, Não Vá Ainda”, “Enquanto Durmo”, “Verbos Sujeitos”. “Me Revelar”. O encontro de ambos aconteceu no fim dos anos 80, “num apartamento, perdido na cidade...”. Atualmente em suas carreiras paralelamente, nunca deixaram de demonstrar, um com o outro, o afeto e a gratidão de tantos anos de trabalho conjunto.




7) CÁSSIA ELLER

Amiga dos tempos de Brasília, é curioso perceber que não existe registro ao vivo da reunião das cantoras. Mas a amizade realmente existiu e Zélia não economiza em homenagens reiteradas sempre que pode. Eu lembro que as más línguas disseram que, com a morte da cantora, Zélia estava disposta a ocupar o posto de maior cantora “máscula”, a ponto de até cortar os longos cabelos para soar “Cássia Eller”. Os imbecis detratores esquecem que Zélia nunca quis esse posto e que até já tinha cortado as madeixas bem antes do falecimento de Ms. Eller. No DVD “Sortimento Vivo”, o público simplesmente pára e contempla a sincera e emocionante homenagem que Zélia oferece à amiga com a dobradinha “Por Enquanto” e “Segundo Sol”. Do disco “Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band”, “Mãos Atadas”, canção de Simone Saback, era uma promessa antiga de dueto das duas que, infelizmente, esperaram demais. Já no “Amigo é Casa”, Zélia e Simone mandam uma “Gatas Extraordinárias” certeira, pertinho do fim show, para dedicar à saudosa e moleca cantora.
Por fim, as vozes de Zélia e Cássia se encontram na regravação de “Get Back”, dos Beatles, no póstumo disco da cantora, “10 de Dezembro’, produzido por Nando Reis.


8) TOM ZÉ


“Dá vontade de ninar a Zélia. Ela é capaz de cantar qualquer canção como elas merecem ser cantadas. Ela tem a capacidade de viver num leque tão grande e de conviver com tanta gente, com talento de escolha tão fino, solene, generoso. É minha filhinha querida." Tom Zé define Zélia de maneira bem paternal e, como uma boa filha, ela faz de tudo pra orgulhar o “pai”. E o público. A releitura de “Tô”, do disco “Eu Me Transformo em Outras”, é uma das coisas mais lindas e engraçadinhas que Zélia já fez na sua carreira. Destaco também a participação dela no disco “Estudando o pagode”, dele e uma releitura sua pra “Cedotardar”, que canta no show “Pelo Sabor do Gesto”


9) SIMONE

“Foi aí que tudo começou”, lança Simone ao terminar de cantar “Então me Diz”, versão que Zélia fez para “The Blower’s Daughter” de Damien Rice, no show “Amigo é Casa”. De fato: em 2005, Zélia participou, junto a Milton Nascimento e Ivan Lins, de um show da cigarra e desde então não se largaram mais. A afinidade foi tanta que despertou um sentimento de uma “amizade que parece ser antiga”. Tão forte que decidiram brindá-la musicalmente com o grande disco “Amigo é Casa”, projeto que prima por músicas mais estilizadas, pouco populares e que resgata Simone dos primórdios e coloca Zélia no mais alto patamar “Cult” de sua carreira. Excursionaram juntas pelo país em 2008, fazendo com que o momento ficasse registrado pra sempre em suas memórias. Inclusive, ontem estiveram no programa “Sem Censura”, e falaram um pouco desse período. Uma sintonia no palco invejável, quase nada ensaiado – só embaladas pela emoção. A música faz dessas ;)

10) FREJAT


Frejat e Zélia já gravaram juntos “Exagerado”, música que acabou sendo promocional pro filme do Cazuza, de 2004 (apesar de não constar na trilha do filme, nem em disco dele ou dela). Frejat também participou de “Mãos Atadas” – ele fora recrutado por Zélia no lugar de Cássia Eller, quem sempre deveria ter gravado a música, e conseguiu dar uma voz “roqueira” a uma melodia quase beirando ao blues. Eu sou a favor de muito mais encontros musicais entre essas duas vozes afins e sintonizadas! :)






MENÇÕES HONROSAS:


HERBERT VIANNA – Cantaram juntos a belíssima “Partir, Andar” que fez parte do disco “O Som do Sim”. Zélia a pôs no “Sortimento”, mesmo preocupada que a julgassem por ‘oportunismo”, já que Herbert havia sofrido o acidente naquele período.

HAMILTON DE HOLLANDA e demais músicos do “Eu Me Transformo em Outras"

NANÁ VASCONCELLOS (grande sintonia de ambos, evidenciada também agora com a participação no show da banda “Isca de Polícia”)

PATO FU (John, que havia feito “Todos os dias”, produziu o disco “Pelo Sabor do Gesto”, que conta com a participação vocal de Fernanda Takai)

POSSE-MENTE ZULU (No rap “Desconforto")

MUTANTES (pauta da próxima matéria da cantora no EnTHulho)

ISABELA TAVIANI (A bela “Arranjo” é das duas, e Zélia participa do show de Isabela também)

LULU SANTOS (O perfeito samba “Quisera eu” é de autoria, pasmem, do rei do pop brasileiro)

CHICO CÉSAR (E aí, amizade? Esporte Fino Confortável é dele)

NANDO REIS (Escreveu a faixa titulo do disco “Sortimento”)

ZÉ RAMALHO (A ótima “Porta de Luz”, é um dueto dos dois)

BETH CARVALHO (Zélia sempre teve um pezinho no samba. A festejada música com Beth Carvalho que o diga)

PEDRO MARIANO (Canta com Zélia a linda "Você Vai Ver")

MARTINÁLIA (A sambista lançou uma bela balada com a niteroiense, “Benditas”, além de serem bem amigas).

FRED MARTINS (Flores, quantas flores forem necessárias... Fred Martins foi uma das mais gratas descobertas de Zélia)

PEPEU GOMES E ARNALDO ANTUNES (Autores de "Alma", um dos seus maiores hits)

MARIA BETHÂNIA (Para quem não lembrava, as duas já fizeram um dueto cantando “Baila Comigo” de Rita Lee, e “Shangri-lá”)

ZECA BALEIRO (Zélia vem estabelecendo uma grande conexão com o maranhense, que já vem rendendo grandes frutos, como a ótima "Se Um Dia Me Quiseres")

NUNO MINDELLIS (O cantor angolano já cantou “Gosto do Jeito” com Zélia)

CAPITAL INICIAL (Zélia participou do acústico MTV deles, cantando a bela “Eu Vou Estar”)

ED MOTTA (“Meu grande parceiro”, reverencia Zélia. Ela assina várias composições de discos dele, como “Mentiras Fáceis, “ À Deriva” e “Quem pode se surpreender”. )

MARINA LIMA (Marina deu um verdadeiro instrumental pra letra de "Tempestade". Eu confesso que gostei mais da releitura de Marina- a poderosa letra merecia uma melodia e ambientação bem melhor e foi o que a cantora conseguiu. Zélia canta ainda, junto a Simone, a magnífica "Grávida", do disco Marina Lima de 1991).

FITO PAEZ (O roqueiro argentino ficou encantado com o trabalho de Zélia e a chamou para cantar em seu show. Ela dueta “Furioso Petalo de Sol”.

ROBERTO CARLOS – Só uma notinha final: no show do “Pelo Sabor do Gesto”, Zélia homenageia os 50 anos do Rei cantando a quase desconhecida “I Love You” e desfere um leve desabafo “Eu não fui convidada ao castelo do rei (refere-se ao show “Elas cantam Roberto”), mas, quer saber? Aqui eu posso cantar a música que eu quiser e quantas vezes quiser"


Faltou mais alguma? É claro que sim. São inúmeras parcerias. Que tal me ajudarem?


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PAGU
Zélia Duncan e Rita Lee

Mexo, remexo na inquisição
Só quem já morreu na fogueira
Sabe o que é ser carvão
Eu sou pau pra toda obra
Deus dá asas à minha cobra
Minha força não é bruta
Não sou freira
Nem sou puta...

Porque nem!
Toda feiticeira é corcunda
Nem!
Toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho
Que muito homem

Sou rainha do meu tanque
Sou Pagu indignada no palanque
Fama de porra louca
Tudo bem!
Minha mãe é Maria Ninguém
Não sou atriz
Modelo, dançarina
Meu buraco é mais em cima

Porque nem!
Toda feiticeira é corcunda
Nem!
Toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho
Que muito homem...
Ratatá! Ratatá! Ratatá!
Taratá! Taratá!...


TH - Um cansado porém satisfeito UFA!!!



terça-feira, 9 de novembro de 2010

AMIGO MUSICAL CONVIDADO # 17 - Felipe Ramirez!

Mais um que tem problemas de exposições na internet. Fazer o que?! :p



Engraçado pensar nele assim: como somos parecidos e diferentes na essência. Um grande amigo, companheiro de inúmeros números de circo, tragédias gregas, contos de fadas, de bruxas. E sempre juntos. O moço me fez enxergar o que eu poderia oferecer aos outros e a mim mesmo, apenas tirando minha viseira, num crucial momento de incertezas e dúvidas que vivenciava...
Não é apenas o meu melhor amigo, tenho certeza: fomos irmãos ou algo mais em vidas outroras (o que, não acreditam nisso?rs). Não há TH sem FR - Nem nunca haverá...Quando, por um curtíssimo lapso temporal, ficamos sem nos falar, percebemos o quanto não éramos nada, um sem o outro. Desintegrados, nossas essências eram totalmente nulas - o que nos fez, tão logo, "nos tocar" e deixamos de lado nossas bobeiras, vendo que a verdadeira amizade sempre prevalece acima de qualquer impasse pífio. Inefável parceiro...Mal necessário chamado Felipe Ramirez!
Longe como está, ou presente como sempre esteve, o que nos liga, sobretudo, é o barbante: enquanto eu voo, ele o segura e me mantém a salvo...

...

Quem vê esse texto acima que fiz em 2008 pro meu outro blog, "ETHos" pensa que o rapaz é uma dádiva. Não que não seja, mas eu ainda acrescento: é um doido! Um maluco que quando passa, faz a gente rir sem precisar fazer muito esforço. Um palhaço divertido que consegue fazer até a barriga do Pedro de Lara doer de tanto dar risada. E nos faz pensar: tão bom que pessoas que já sofreram tanto na vida pudessem seguir suas sagas com tanto bom humor e suavidade. Felipe é leve. Às vezes frívolo, mas consegue muito bem depositar um pouco de sua boa energia por onde passa e com quem se envolve.

Nosso nobre agora se aventura numa micro empresa de informática aberta em João Pessoa e ainda continua com a mania feia de não querer se mostrar na internet (que coisa, viu?). Sorte que roubei a foto acima há muito e vocês tem uma ideia de como o moço é.

Fiquem agora com um apaixonado relato de um pernambucano forte, com uma das mais fodásticas músicas que, mesmo sem ser pernambucano, cantarolo fácil e bem!


Lenine: potencial evidenciado na fervorosa letra!

Eu estava louco pra participar do “Amigo Convidado” do blog do TH, mas tinha medo do meu texto ficar abaixo do nível das pessoas que escrevem aqui. Bem, como todo pernambucano cabra da peste, a coragem veio hoje e resolvi escrever sobre uma das músicas que mais dão orgulho do meu estado do coração. Nasci em Pernambuco, morei em Alagoas e agora estou na Paraíba. Em cada lugar eu deixo um pouco de mim, mas em Recife me criei e aprendi a valorizar a cultura que tanto é festejada na minha terra. Terra de nordestinos importantes demais, ainda mais no mundo da música. Desde pequeno a gente aprende a dar importância a músicos do “naipe” de Bezerra da Silva, Jorge de Altinho, Alceu Valença, Luiz Gonzaga (salve o mestre!), Dominguinhos (salve o outro), Orlando Dias e muito mais. Meu estado possui uma mistura maravilhosa de ritmos e danças típicas e tem com muito orgulho o maior carnaval do meu Brasil!!!!
Viver é muito bom, mas viver carregando a naturalidade pernambucana é melhor ainda. Não sou nem um pouco bairrista hein? Hehahhaha. Chega de papo e vamos à música: nossos cantores populares criam músicas que se tornam verdadeiros hinos do estado, pois falam demais de nossa cultura, com elementos que só a gente conhece e canta junto, com paixão. E acho legal que essa coisa tão “caseira” possa estar ao alcance do grande Brasil e até do mundo! Lenine fez um dos melhores retratos de nosso estado, dizendo com toda razão “sou coração do folclore nordestino”. Pernambuco, junto a tantos estados maravilhosos que constituem nossa região, tem uma grande parcela de cultura folclórica, e faz o nordeste ter uma carga cultural tão forte que é lamentável que “filhas da puta” como a tal Mayara Petruso não entendam e não fique feliz de nos ter como irmãos.
Leão do Norte é mais do que um hino pernambucano. É o retrato fiel de um estado que sente prazer em divulgar o que oferece de melhor dentro de si. E choro toda vez que ouço novamente.

FELIPE RAMIREZ



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LEÃO DO NORTE
Composição: Lenine e Paulo César Pinheiro

Sou o coração do folclore nordestino
Eu sou Mateus e Bastião do Boi Bumbá
Sou o boneco do Mestre Vitalino
Dançando uma ciranda em Itamaracá
Eu sou um verso de Carlos Pena Filho
Num frevo de Capiba
Ao som da orquestra armorial
Sou Capibaribe
Num livro de João Cabral
Sou mamulengo de São Bento do Una
Vindo no baque solto de Maracatu
Eu sou um auto de Ariano Suassuna
No meio da Feira de Caruaru
Sou Frei Caneca do Pastoril do Faceta
Levando a flor da lira
Pra Nova Jerusalém
Sou Luis Gonzaga
E eu sou mangue também

Eu sou mameluco, sou de Casa Forte
Sou de Pernambuco, sou o Leão do Norte

Sou Macambira de Joaquim Cardoso
Banda de Pife no meio do Canavial
Na noite dos tambores silenciosos
Sou a calunga revelando o Carnaval
Sou a folia que desce lá de Olinda
O homem da meia-noite puxando esse cordão
Sou jangadeiro na festa de Jaboatão

Eu sou mameluco, sou de Casa Forte
Sou de Pernambuco, sou o Leão do Norte

TH - Pernambucanos sabem o que é bom! :)

* A música foi gravada também por Elba Ramalho pro disco "Leoa do Norte", de 1996. A versão do vídeo abaixo é a do acústico MTV de Lenine, lançado em 2006!



sábado, 6 de novembro de 2010

RESPOSTA AOS ATAQUES XENOFÓBICOS CONTRA NORDESTINOS VIA TWITTER

Elba Ramalho: música provocativa que foi alvo de censura na década de 80


A música "Nordeste Independente", de autoria de Ivanildo Vilanova e Bráulio Tavares, o "raio da cilibrina", consistia no momento mais ovacionado dos shows que Elba Ramalho fazia por volta de 1983. Na época, a cantora havia sido eleita a maior estrela da música brasileira pela revista Veja, e, ao lançar o trabalho seguinte, "Do Jeito Que a Gente Gosta" (1984), resolveu incluir a gravação ao vivo para fechar o disco. O resultado foi catastrófico: de tão aplaudida que a música era nos espetáculos, acabou sendo alvo dos censores, que não engoliram muito a ideia de "segregração" que era brincada na letra.
Na realidade, era uma brincadeira provocativa em tom de protesto, ante o descaso dos políticos e a hostilidade das demais regiões brasileiras com o Nordeste, desde aquela época sofrendo com as consequências da seca e marginalizado por seu povo simplório, de sotaque "feio" (segundo eles) e a aparente pobreza. O Lp era vendido com um lacre, deixando clara a proibição da radiodifusão da música em questão.
A censura já deixou o Brasil faz tempo, mas será que podemos falar a mesma coisa do preconceito? Os ataques de xenofobia na rede social Twitter contra os nordestinos, oriundos do resultado das pesquisas das eleições (que mostraram que Dilma teve mais votos na nossa região) revelam que a questão continua mais ativa e estampada do que nunca...

COMENTÁRIO DE TH:
Não acho que segregação alguma deva ser exemplo pra nada. A própria letra da música prega isso e não acho tão válido...a diversidade regional e cultural é justamente o que faz esse país ser tão rico e completo. Somos todos iguais, com nossas marcas regionais expostas em nossa voz, com problemas típicos (seca no Nordeste, violência no Rj, poluição em SP). Não há o que se falar em hierarquia de nenhuma sorte...
Entretanto, a música se faz oportuna pois é sempre bom relembrar gente de memória tão curta da importância que o Nordeste tem no contexto sócio-econômico e do carisma da maior parte de seus descendentes. E Elba, apesar de todo protesto, deixa claro que a brincadeira tem intenção não apenas de peitar, mas de conscientizar. E sempre estarei com ela nisso ;)


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NORDESTE INDEPENDENTE
Elba Ramalho. Ivanildo Vilanova e Bráulio Tavares

Já que existe no sul esse conceito
Que o nordeste é ruim, seco e ingrato
Já que existe a separação de fato
É preciso torná-la de direito
Quando um dia qualquer isso for feito
Todos dois vão lucrar imensamente
Começando uma vida diferente
De que a gente até hoje tem vivido
Imagina o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

Dividindo a partir de Salvador
O nordeste seria outro país
Vigoroso, leal, rico e feliz
Sem dever a ninguém no exterior
Jangadeiro seria o senador
O cassaco de roça era o suplente
Cantador de viola o presidente
O vaqueiro era o líder do partido
Imagina o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

Em Recife o distrito industrial
O idioma ia ser nordestinense
A bandeira de renda cearense
“Asa Branca” era o hino nacional
O folheto era o símbolo oficial
A moeda, o tostão de antigamente
Conselheiro seria o inconfidente
Lampião, o herói inesquecido
Imagina o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

O Brasil ia ter de importar
Do nordeste algodão, cana, caju
Carnaúba, laranja, babaçu
Abacaxi e o sal de cozinhar
O arroz, o agave do lugar
O petróleo, a cebola, o aguardente
O nordeste é auto-suficiente
O seu lucro seria garantido
Imagina o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

Se isso aí se tornar realidade
E alguém do Brasil nos visitar
Nesse nosso país vai encontrar
Confiança, respeito e amizade
Tem o pão repartido na metade,
Temo prato na mesa, a cama quente
Brasileiro será irmão da gente
Vai pra lá que será bem recebido
Imagina o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

Eu não quero, com isso, que vocês
Imaginem que eu tento ser grosseiro
Pois se lembrem que o povo brasileiro
É amigo do povo português
Se um dia a separação se fez
Todos os dois se respeitam no presente
Se isso aí já deu certo antigamente
Nesse exemplo concreto e conhecido
Imagina o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

Povo do meu Brasil
Políticos brasileiros
Não pensem que vocês nos enganam
Porque nosso povo não é besta


TH - Não mesmo!! :)
(Música já consoante no blog antigo no dia 25 de Junho de 2007!)


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

FUNÇÃO NO CANCIONEIRO BRASILEIRO: EMOCIONAR!

Nana Caymmi não liga quando falam que só canta "música de fossa"


Neste ano de 2010 estreou no cinema brasileiro o mais novo documentário do diretor francês apaixonado por música brasileira, Georges Gachot (o mesmo que realizou, em 2004, o "Música é perfume", sobre a vida musical de Maria Bethânia). Muito me interessou contemplar esse novo trabalho do cineasta (Rio Sonata), pois é referente a uma grande "diva" a qual sempre tive vontade de conhecer mais ainda, nos mínimos detalhes de sua saga: a magnífica Nana Caymmi!
Filha de Dorival, Nana sempre me representou candura e sensibilidade. Consegue impor uma força inacreditável nas interpretações, sempre primando pela melancolia, estilo no qual se sente bastante em casa. Até quando canta canções mais vibrantes do cancioneiro do pai, faz de maneira melancólica, e justifica: "Pode não parecer, mas a melancolia quase sempre esteve nos versos e nos acordes de meu pai". Ironicamente, Nana sempre manteve um sorriso agradável quando a via nas entrevistas, e tem a seu favor o dom de não economizar muito pra dizer suas verdades. Lembro de um show, aqui em Maceió, onde a cantora se dizia bastante decepcionada com a falta de reconhecimento do Brasil com as maravilhosas composições do pai, e que a maioria dos músicos só buscavam compositores mais óbvios.
Em 2008, quando seu pai morreu, o país se solidarizou com sua dor e de seus irmãos. O talento decididamente foi herdado, mas se engana quem pensa que Nana só fica restrita ao repertório de seu pai. Ela é perfeita intérprete de compositores variados - de Chico Buarque, a Tom Jobim e até Roberto Carlos! E em todos deposita suas belas lágrimas, convidando o ouvinte a deliciosamente se esbaldar junto...

Fortíssima candidata a uma futura "Artista do Mês" daqui do blog! :) Abaixo, a bela releitura da carioca para a música de outra grande "rainha das fossas".

Cartaz do Rio Sonata. À direita, Nana e Dori: cumplicidade, amor e respeito pelo "acalentador" genitor...





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TARDE TRISTE
Nana Caymmi. Maysa

Tarde triste me recorda
Outros tempos
Que saudade
Que saudade

Vivi só
Num turbilhão de pensamentos
De saudade
De saudade

Por onde andará quem amei
Será que também vive assim
Sofrendo como só eu sei
Pensando um pouquinho em mim

Tarde triste
Noite vem
Já está descendo
E eu sozinha, sofrendo


TH - :´(



segunda-feira, 1 de novembro de 2010

ARTISTA DO MÊS: ZÉLIA DUNCAN!


A mais versátil e mutante cantora brasileira!



Estou me acostumando comigo.
Revendo a casa os vizinhos
E os vazamentos e isso já não me assusta mais (...)
Se volto pra mim
Pouso na terra
E é macio saber
Que isso não me assusta
E "Me Gusta" voltar..."


Quem ouve o início do DVD "Sortimento Vivo", de 2002, testemunha uma das melhores sintonias entre artista e público existentes na música brasileira.
Aqui no EnTHulho, eu costumo falar dos artistas de maneira imparcial, fazendo leves críticas aqui, elogios um pouco mais acalorados acolá, porém nunca saí da medida exata. Estou prestes a fazê-lo, agora.
Impossível não mencionar a importância e o fascínio que essa mulher exerce em minha vida. E a postura da mesma em entrevistas, shows, camarins, twiters, e-mails respondidos, é igual: carisma, simpatia e inteligência esbanjada. Sorriso brejeiro, forte presença cênica, uma voz grave potente que se manifesta conforme manda o sentimento da canção e o principal: tem consciência da função que opera na música brasileira.
Não economizo elogios pois sei que Zélia merece muito mais do que o reconhecimento que já tem. Poucas artistas conseguem fazer álbuns tão milimetricamente trabalhados e diferentes um do outro, ou ainda escolher parcerias tão bem sintonizadas - aliás, na música brasileira, é raro quem ainda não gravou com Zélia. Ela tem esse dom de deixar o "partner" "em casa" ao seu lado, e alcança a mágica da condução equilibrada do dueto. Por isso tanta gente a aceita de pronto e chega junto :)
Ms. Duncan também ousa bastante. Às vezes, as vendagens pouco importam ante a vontade de fazer registros que tanto quer, como na fase do "Eu Me Transformo em Outras", ou ainda vai além, aventurando-se em tantos projetos paralelos como nos "Mutantes" e no disco que lançou junto a Simone. Não comentei antes mas, além de intérprete competente, é uma compositora ímpar! E foram justamente suas composições certeiras, confessionais e íntimas que pontuaram minha identificação e a falta de pudor de afirmar: minha cantora preferida de todos os tempos, tendo, cada álbum seu, uma importância espetacular em cada fase de minha vida.
Acompanho sua carreira há muuuuito tempo e ela continua com essa mania de me surpreender. Há duas semanas a vi no Som Brasil cantando junto ao Marcos Valle "Eu Preciso Aprender a Ser Só", e não contive a emoção...
Ao longo do mês, o blog ficará repleto de matérias especiais sobre sua carreira, com direto a listas afetivas e curiosidades de Zélia. E, abaixo, uma mini biografia improvisada, desta vez assinada por este que vos escreve!
Salve Zélia Duncan!




Zélia nasceu em 1964 em Niterói e, aos 6 anos de idade, foi para Brasília, onde ficou até os 22 anos. Apesar de amar sua terra, foi na capital federal que teve todas as oportunidadades musicais possíveis e começou a cantar profissionalmente, na extinta Sala Funarte que, na época, abria concorrência para que novos talentos se apresentassem. Tendo um tímido reconhecimento, aos poucos Zélia Cristina (como assinava seu nome artistico na época) foi convidada para estender seus shows além de Brasília e a abrir para artistas mais consagrados, tendo seu grande passo ao fazer a abertura do show de Luiz Melodia, a convite do próprio.
Em 1987, de volta ao Rio de Janeiro, contando com a experiência adquirida, Zélia decide montar seu primeiro show agora em terras cariocas e assim o fez, no Botanic. O repertório já mostrava o largo flerte que a moça tinha com Itamar Assumpção e ela primava por composições menos conhecidas.

Em 1989, pensou fazer algo mais ousado, diferente, audacioso e, ao conhecer a diretora teatral Ticiana Studart, vinda de Nova Iorque e que tinha planos parecidas. produziram juntas o show “Zélia Cristina no Caos”. O nome do show foi dado devido ao stress que sentiram ao perceberem que os recursos eram precários, assim como caótico era produzir no Brasil, em espaços também caóticos, e onde a violência é um caos e o tratamento dado à cultura era também um caos. Nada mais propício! Mas o caos todo lhe rendeu o convite da Eldorado para gravar um disco.
Foi em 1990, o LP 'Outra Luz", disco com instrumentais precários, mas que, desde então, já mostrava que o caos rendeu o melhor dos frutos, e vimos Zélia já apostando em composições próprias, misturadas com versões de Kenny G, Rita Lee, com participação afetiva de Luiz Melodia. Destaque nesse disco, pra mim, para 'Super Homem, a canção", uma das interpretações mais sensíveis da excelente letra de Gilberto Gil.
Devido à insatisfação com o resultado, Zélia resolveu passar um semestre nos Emirados Árabes, cantando diariamente num hotel, numa espécie de "estágio', o que foi primordial pra sua carreira. De volta ao Brasil, assinalando agora como "Zélia Duncan", ressurge num período marcado por grandes aparições da música brasileira dos anos 90 como Marisa Monte, Cássia Eller e Adriana Calcanhotto. Conhecer Guto Graça Melo - grande produtor, compositor responsável pela produção musical da Rede Globo e de vários filmes, foi um acontecimento interessante, o que levou a parceria de ambos para o lançamento de futuros registros de shows seus.

Em 1994, lança, pela WEA, o que é considerado pelos seus maiores fãs o seu primeiro disco, "Zélia Duncan", marcado pela versão de "Catedral", pro sucesso de Tanita Tikaram. Mas o disco teve muito mais! "Nos Lençois desse Reggae" entrou na trilha de "Confissões de adolescente", a própria "Catedral" estourou nas rádios - era intrigante quererem saber quem era aquela cantora de voz grave e suave cantando versos tão românticos e íntimos e estourando nos primeiros colocados de todos os rankings. Minha preferida do disco é a também famosa "Não Vá Ainda" - com certeza, com uma participação enorme na vida afetiva de TH :) Vale destacar também a releitura de "Lá Vou Eu", iniciando assim uma bela e acertada parceria entre Zélia e sua compositora, uma tal de Rita Lee... ;)
E veio o reconhecimento: prêmios de vendagens, shows país adentro. Lança a seguir dois álbuns que eu considero os melhores de sua carreira: "Intimidade" (1996) e "Acesso" (1998), fazendo Zélia agora excurisionar pela Europa, Japão e outros países.

Na década de 2000, muda seu estilo musical ao lançar o versátil "Sortimento", alcançando mais sucesso ainda e colocando os hits "Me Revelar" e "Alma" nas paradas. "Alma" virou tema de novela e a música de abertura do show "Sortimento Vivo", cujo registro virou um belo DVD no ano seguinte.
A partir de então Zélia passou a ousar mais em seus estilos musicais. Lança em 2004 um projeto paralelo intitulado "Eu Me Transformo em Outras', onde homenageia seus maiores ídolos musicais, como Ella Fitzgerald, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Cartola...com uma banda criada especialmente pro disco/show. Em 2005, ainda "contagiada" pelo espírito 'mutante" de seus trabalhos anteriores, investe no arrojado "Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band", disco que tem metade de seu repertório Pop, e metade (literalmente) elitizado e com resquícios da capacidade de inovar que vinha apresentando. Ao mesmo tempo, recebe o convite para ser a nova integrante dos Mutantes, onde fica até 2007, saindo para retomar sua carreira solo. Houve ressentimentos? A discrição de Zélia lhe faz calar sobre o tema, porém Sérgio Dias não economizou nas declarações polêmicas: "ela não é uma mutante, e sim uma transformer".

Com o fim (e o registro) da turnê do Pré-Pós-Tudo, Zélia, que, em 2005, havia participado como convidada do show de Simone cantando "Não Vá Ainda", "A Idade do Céu" e "Eu Tô Voltando", resolve lançar um disco com a baiana, de nome "Amigo É Casa". Com um repertório pouco óbvio, que une o melhor do inicio de carreira de Simone e a faceta mais "cult" de Zélia, o disco foi bem aceito e fez ambas excursionarem por todo o país, numa sintonia pouco vista em toda música brasileira.

Chegamos a 2009 e Zélia retoma sua carreira individual com o belo e sensível disco "Pelo Sabor do Gesto", com produção de John do "Pato Fu", participação vocal de Fernandinha Takai e lindas canções, num semblante que remete ao "folk' tão atuante no começo de sua carreira e arranjos quase "beatlicos". Zélia tá aí, pra provar que sabe o papel importante que ostenta na música brasileira e que faz jus a toda confiança depositada pelos fãs, superando-se a cada projeto - paralelo ou próprio!








Presente pros leitores do EnTHulho e, ao meu lado, Zélia em 2010: aspereza e maturidade musical.




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PELO SABOR DO GESTO
Alex Beaupain. Versão: Zélia Duncan
Citação de Fernando Pessoa: fragmentos (1933)

Quem já tocou o amor pelo sabor do gesto?
Sentiu na boca o som? Mordeu fundo a maçã?
Na casca, a vida vem tão doce e tão modesta
Quem se perdeu de si?

Eu já toquei o amor pelo sabor do gesto
Confesso que perdi, me diz quantos se vão?
Paixões passam por mim, amores que têm pressa
Vão se perder em si

Se o amor durou demais, bebeu nas suas veias
Seus beijos de mentira não chegam muito longe
Paixões correm por mim, são só suaves febres
Seus beijos mais gentis derretem pela neve
Pra que tocar o amor pelo sabor do gesto
Se o gosto da maçã vem sempre indigesto?
Amarga essa canção, os dias e o resto
Se perde como um grão

Mas se eu ousar amar pelo sabor do gesto
Te empresto da maçã, vai junto o coração
Esquece o que eu não fiz
Te sirvo o bom da festa
De um jeito mais feliz

Paixões correm por mim, eu sei tudo de cor
carinho sem querer me cansa e me dói
Se o amor vem pra ficar, faz tudo mais bonito
Me basta ter na mão e o corpo tem razão

“Há em tudo que fazemos
Uma razão singular:
É que não é o que queremos.
Faz-se porque nós vivemos,
E viver é não pensar.
Se alguém pensasse na vida,
Morria de pensamento.
Por isso a vida vivida
É essa coisa esquecida
Entre um momento e um momento."


TH - Uma verdadeira oração...


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